By Fernando Figueira
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June 13, 2026
A cirurgia cardiovascular vive um momento fascinante. Ao longo das últimas décadas, os avanços da cirurgia de peito aberto transformaram doenças antes fatais em condições tratáveis, permitindo que milhões de pessoas recuperassem sua qualidade de vida e ganhassem anos de vida com segurança e excelentes resultados. Como cirurgião cardiovascular, acompanho de perto essa evolução. E uma das questões mais interessantes da atualidade é observar como novas tecnologias vêm ampliando as opções terapêuticas disponíveis para os pacientes. É importante destacar, entretanto, que inovação não significa substituição. A cirurgia convencional continua sendo o tratamento de escolha para muitos casos e segue oferecendo resultados extraordinários quando bem indicada. O que estamos presenciando é uma ampliação do arsenal terapêutico da cardiologia e da cirurgia cardiovascular, permitindo que cada paciente receba um tratamento cada vez mais personalizado. Entre essas inovações, uma das que mais chamam atenção é o MitraClip, uma tecnologia minimamente invasiva desenvolvida para o tratamento da insuficiência mitral em pacientes com alto risco cirúrgico. Entendendo a insuficiência mitral A válvula mitral é responsável por controlar o fluxo sanguíneo entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. Quando ela não consegue fechar adequadamente, parte do sangue retorna na direção contrária durante a contração do coração. Essa condição é chamada insuficiência mitral. Dependendo da gravidade do problema, o paciente pode apresentar sintomas como falta de ar, cansaço aos esforços, palpitações, redução da capacidade física e episódios frequentes de insuficiência cardíaca. Durante muitos anos, a cirurgia convencional foi a principal alternativa para corrigir esse defeito. E continua sendo, em muitos casos, a melhor opção disponível. Os procedimentos cirúrgicos permitem reparar ou substituir a válvula mitral com excelentes índices de sucesso e durabilidade. Em pacientes adequadamente selecionados, especialmente aqueles com menor risco cirúrgico, a cirurgia continua sendo considerada o padrão de referência para o tratamento da insuficiência mitral significativa. No entanto, existe um grupo de pacientes que apresenta um desafio especial: idosos muito fragilizados, portadores de múltiplas doenças associadas ou pessoas que já passaram por procedimentos cardíacos anteriores e possuem risco elevado para uma nova cirurgia. Foi justamente para esse perfil de paciente que surgiram as terapias transcateter. O que é o MitraClip? O MitraClip é um dispositivo utilizado em um procedimento chamado reparo transcateter borda a borda da válvula mitral, conhecido internacionalmente como TEER (Transcatheter Edge-to-Edge Repair) . Diferentemente da cirurgia convencional, o procedimento é realizado por meio de um cateter introduzido pela veia femoral, na região da virilha. Guiado por exames de imagem em tempo real, o dispositivo é levado até a válvula mitral, onde promove a aproximação dos seus folhetos, reduzindo o refluxo sanguíneo. O conceito não é totalmente novo para os cirurgiões cardiovasculares. Na verdade, ele reproduz por via percutânea princípios já conhecidos da técnica cirúrgica desenvolvida por Ottavio Alfieri, amplamente utilizada no reparo da válvula mitral. A grande diferença está na forma de acesso ao coração, evitando a abertura do tórax e a necessidade de circulação extracorpórea em pacientes selecionados. Cirurgia convencional e procedimentos minimamente invasivos: concorrentes ou aliados? Uma dúvida comum entre pacientes é se as novas tecnologias irão substituir a cirurgia cardíaca tradicional. A resposta é simples: não. A cirurgia convencional permanece insubstituível em diversas situações clínicas. Muitos pacientes se beneficiam de reparos valvares complexos que somente a cirurgia consegue oferecer. Além disso, os resultados de longo prazo da cirurgia continuam sendo extremamente consistentes, especialmente em pacientes mais jovens e com anatomia favorável. Por outro lado, tecnologias como o MitraClip permitem tratar pacientes que muitas vezes não teriam condições de enfrentar uma cirurgia convencional com segurança. Portanto, não se trata de escolher entre uma técnica ou outra. O mais importante é identificar qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre eficácia, segurança e qualidade de vida para cada indivíduo. Essa é justamente a essência da medicina moderna: personalizar o tratamento. O que mostram os estudos? O principal estudo que consolidou o papel do MitraClip foi o COAPT, publicado inicialmente no New England Journal of Medicine. A pesquisa avaliou pacientes com insuficiência mitral secundária grave associada à insuficiência cardíaca que permaneciam sintomáticos apesar do tratamento clínico otimizado. Os resultados foram expressivos. Os pacientes submetidos ao procedimento apresentaram redução significativa das hospitalizações por insuficiência cardíaca, melhora da qualidade de vida e redução da mortalidade quando comparados ao tratamento clínico isolado. Em uma das análises mais conhecidas do estudo, a taxa de hospitalização por insuficiência cardíaca em dois anos caiu de 56,4% para 34,8% entre os pacientes tratados com o dispositivo. Além disso, eles passaram mais tempo vivos e fora do ambiente hospitalar. Esses resultados contribuíram para que o MitraClip fosse incorporado às principais diretrizes internacionais para pacientes criteriosamente selecionados. Mas os resultados do MitraClip não se restringem aos grandes centros internacionais. No Brasil, a experiência com o MitraClip já acumula mais de uma década. Em um dos primeiros relatos nacionais publicados na Revista Brasileira de Cardiologia Invasiva, equipes do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Pró-Cardíaco documentaram os dois primeiros casos realizados no país. Em ambos os pacientes, considerados de alto risco para cirurgia convencional, houve redução significativa da insuficiência mitral após o implante do dispositivo, reforçando a viabilidade e a segurança da técnica em nosso meio. Desde então, o crescimento dos programas de cardiologia estrutural em hospitais de referência tem ampliado o acesso a esse tipo de tratamento, acompanhando uma tendência mundial de expansão das terapias minimamente invasivas. O futuro da cirurgia cardiovascular Quando observamos a evolução da cardiologia nas últimas décadas, fica claro que estamos caminhando para um cenário cada vez mais integrado. Procedimentos como TAVI, MitraClip, intervenções estruturais complexas, planejamento por imagem tridimensional, inteligência artificial e plataformas robóticas estão transformando a forma como avaliamos e tratamos as doenças cardiovasculares. Ao mesmo tempo, a cirurgia cardíaca convencional continua evoluindo. Novas técnicas de preservação de tecidos, avanços anestésicos, melhor controle perioperatório e o refinamento dos procedimentos reconstrutivos têm contribuído para resultados cada vez melhores. Por isso, acredito que o futuro não pertence exclusivamente às terapias percutâneas nem exclusivamente à cirurgia convencional. O futuro pertence à integração dessas abordagens. O conceito de Heart Team — no qual cirurgiões, cardiologistas clínicos, hemodinamicistas, especialistas em imagem e outros profissionais discutem conjuntamente cada caso — representa exatamente essa nova visão da medicina cardiovascular. A história da cirurgia cardíaca sempre foi marcada pela inovação. O que hoje consideramos procedimentos tradicionais já foi, um dia, uma revolução tecnológica. O MitraClip é mais um capítulo dessa trajetória. Ele não substitui a cirurgia convencional, mas amplia as possibilidades de tratamento para pacientes que antes possuíam poucas alternativas terapêuticas. Como cirurgiões cardiovasculares, temos o compromisso de acompanhar essas transformações sem perder de vista aquilo que permanece essencial: oferecer ao paciente o tratamento mais adequado, baseado em evidências científicas, experiência clínica e avaliação individualizada. A verdadeira evolução da medicina não está em trocar uma técnica por outra. Está em utilizar o melhor de cada tecnologia para alcançar o mesmo objetivo que sempre guiou nossa profissão: cuidar das pessoas da forma mais segura, eficaz e humana possível.