Quanto tempo posso esperar diante dos sintomas de um infarto?

Fernando Figueira • June 22, 2026

A dor começou há alguns minutos. Talvez seja apenas uma azia. Talvez tenha sido o almoço. Talvez seja o estresse. Muitas vezes, é exatamente assim que começa um infarto. Todos os dias, milhares de brasileiros convivem com sintomas que poderiam indicar uma emergência cardiovascular e, ainda assim, optam por esperar. Alguns tomam um analgésico. Outros resolvem deitar por alguns minutos. Há quem procure informações na internet antes de buscar atendimento médico.


Enquanto isso, uma corrida silenciosa acontece dentro do organismo. A cada minuto de atraso, células do músculo cardíaco deixam de receber oxigênio e começam a morrer. Diferentemente de outros tecidos, o coração possui capacidade limitada de regeneração. Quando uma área do músculo cardíaco sofre dano irreversível, suas consequências podem acompanhar o paciente por toda a vida. Por isso, na cardiologia existe uma frase amplamente conhecida: Tempo é músculo. Ela resume uma das verdades mais importantes da medicina cardiovascular moderna.


A hora de ouro: por que o tempo faz tanta diferença


O infarto agudo do miocárdio ocorre, na maioria das vezes, quando uma artéria coronária é obstruída abruptamente, interrompendo o fluxo sanguíneo para uma região do coração. A partir desse momento, inicia-se um processo progressivo de lesão celular. Quanto mais rapidamente o fluxo sanguíneo for restabelecido, maior será a quantidade de músculo cardíaco preservada. Por esse motivo, os primeiros momentos após o surgimento dos sintomas são considerados decisivos. Embora não exista um limite absoluto, a literatura médica demonstra que os melhores resultados ocorrem quando o diagnóstico e o tratamento são realizados o mais precocemente possível.


Pacientes atendidos rapidamente apresentam menores taxas de mortalidade, menor risco de insuficiência cardíaca e melhor qualidade de vida após o evento. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência imediata, mas também a capacidade do coração de continuar funcionando adequadamente nos anos seguintes.


A importância da rede de urgência e emergência


Quando uma emergência cardiovascular acontece, cada etapa da assistência faz diferença. Reconhecer os sintomas rapidamente, acionar o serviço de emergência, realizar o diagnóstico precoce e encaminhar o paciente para o tratamento adequado são medidas que salvam vidas diariamente.

Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente na organização das redes de atenção às urgências. Serviços como o SAMU desempenham papel fundamental ao permitir que pacientes recebam orientação e atendimento especializado ainda nos primeiros momentos da ocorrência.

Esse cuidado integrado reduz atrasos e aumenta as chances de recuperação. A população muitas vezes enxerga o atendimento apenas a partir da chegada ao hospital, mas existe uma estrutura complexa de profissionais, protocolos e serviços trabalhando para que o paciente chegue ao local certo no menor tempo possível.


Reconhecer, agir e não esperar



Quando falamos sobre infarto, é comum focar nos fatores de risco: hipertensão, diabetes, tabagismo, colesterol elevado e sedentarismo. Todos eles são importantes, mas existe um fator que muitas vezes recebe menos atenção: a velocidade da resposta diante dos sintomas. O conhecimento pode salvar vidas. Saber identificar sinais de alerta e buscar ajuda imediatamente continua sendo uma das formas mais eficazes de reduzir mortes por doenças cardiovasculares. Em um mundo acostumado a adiar compromissos, remarcar consultas e esperar por melhores condições, existe uma situação em que esperar pode custar caro demais. Quando o assunto é infarto, alguns minutos podem representar anos de vida.


By Fernando Figueira June 22, 2026
Vivemos uma era paradoxal. Nunca tivemos tantas ferramentas para nos conectar, trabalhar, aprender e nos comunicar. Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos a estímulos constantes, interrupções sucessivas e à sensação de que precisamos estar disponíveis o tempo todo. As notificações chegam a qualquer hora do dia. O celular permanece ao alcance das mãos durante reuniões, refeições e até momentos de descanso. Muitos brasileiros acordam e dormem olhando para uma tela. A fronteira entre trabalho, lazer e descanso tornou-se cada vez mais tênue. Embora a tecnologia tenha transformado positivamente a sociedade em diversos aspectos, cresce o debate sobre um efeito colateral pouco discutido: o impacto da hiperconectividade sobre a saúde cardiovascular. Não se trata de demonizar a tecnologia. O problema não está na ferramenta em si, mas na forma como ela tem moldado nosso comportamento, nossos padrões de sono, nossa relação com o trabalho e, consequentemente, nossa saúde. O organismo humano não foi projetado para permanecer em estado permanente de alerta Durante milhares de anos, o sistema nervoso humano evoluiu para reagir a ameaças específicas e temporárias. Diante de uma situação de perigo, o organismo libera hormônios como adrenalina e cortisol, aumenta a frequência cardíaca e eleva a pressão arterial. Trata-se de uma resposta fisiológica essencial para a sobrevivência. O problema surge quando esse estado de alerta deixa de ser episódico e passa a ser permanente. A cultura da conectividade contínua cria uma sensação constante de urgência. Mensagens, e-mails, grupos de trabalho e redes sociais mantêm o cérebro em vigilância quase ininterrupta. Ainda que não percebamos conscientemente, nosso organismo interpreta muitos desses estímulos como demandas que exigem resposta imediata. Com o passar do tempo, essa exposição contínua pode contribuir para níveis elevados de estresse, ansiedade, fadiga mental e esgotamento emocional. A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) destaca que o estresse é um importante fator associado ao desenvolvimento e agravamento de doenças cardiovasculares, somando-se a fatores clássicos como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo e tabagismo. O impacto não é apenas psicológico: ele produz alterações fisiológicas mensuráveis e potencialmente danosas ao sistema cardiovascular. Quando o cansaço mental chega ao coração O estresse crônico está associado ao aumento persistente da atividade do sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de luta ou fuga. Na prática, isso significa: Elevação da pressão arterial; Maior sobrecarga para o coração; Aumento da inflamação sistêmica; Alterações no metabolismo da glicose; Maior risco de arritmias; Piora da qualidade do sono; Redução da prática de atividades físicas. Esses fatores, quando mantidos por anos, criam um ambiente favorável para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. O impacto da hiperconectividade também ocorre de forma indireta. Pessoas que passam muitas horas diante das telas tendem a permanecer mais tempo sentadas, dormir menos e apresentar maiores níveis de estresse e ansiedade. Um estudo apresentado no American College of Cardiology demonstrou associação entre tempo excessivo de tela e piores indicadores cardiovasculares, incluindo pressão arterial, colesterol e índice de massa corporal. Mesmo após ajustes para atividade física, o excesso de exposição às telas permaneceu associado a maior risco cardiovascular. O sono: uma vítima silenciosa da era digital Entre os efeitos mais relevantes da hiperconectividade está a deterioração da qualidade do sono. Muitas pessoas encerram o dia respondendo mensagens, navegando em redes sociais ou consumindo conteúdo digital até poucos minutos antes de dormir. Além da estimulação cognitiva, a exposição à luz das telas interfere na produção de melatonina , hormônio fundamental para a regulação do ciclo sono-vigília.Dormir pouco ou dormir mal não representa apenas cansaço no dia seguinte. Diversos estudos demonstram que a privação crônica de sono está associada a hipertensão arterial, obesidade, diabetes tipo 2, doenças coronarianas e maior risco de eventos cardiovasculares. Em outras palavras, o coração também precisa descansar. A falsa sensação de produtividade Existe uma crença moderna de que estar constantemente conectado significa ser mais produtivo. Entretanto, pesquisas na área de comportamento mostram justamente o contrário. A alternância contínua entre tarefas, mensagens e notificações reduz a capacidade de concentração, aumenta a fadiga mental e eleva a sensação de sobrecarga. O resultado é um círculo vicioso: trabalhamos mais horas, descansamos menos e nos sentimos cada vez mais cansados. Esse fenômeno tem contribuído para o aumento dos casos de burnout , condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no ambiente de trabalho. Quando o descanso deixa de existir, o organismo perde a capacidade de recuperação física e emocional. A tecnologia não é inimiga, mas o equilíbrio tornou-se uma necessidade A solução não está em abandonar a tecnologia. Pelo contrário. Ferramentas digitais têm desempenhado papel fundamental na educação em saúde, no monitoramento de pacientes e na ampliação do acesso aos cuidados médicos. O desafio é construir uma relação mais saudável com esses recursos. Pequenas mudanças podem produzir grande impacto: Estabelecer períodos do dia sem notificações; Evitar telas antes de dormir; Reservar momentos para atividade física; Fazer pausas regulares durante o trabalho; Preservar períodos de lazer sem interrupções digitais; Valorizar o contato humano presencial. Cuidar do coração não significa apenas controlar colesterol, pressão arterial ou glicemia. Significa também compreender como nossos hábitos, comportamentos e escolhas diárias influenciam o funcionamento do organismo. Na era digital, talvez uma das medidas mais importantes para proteger a saúde cardiovascular seja reaprender algo que se tornou raro: a capacidade de desconectar.
By Fernando Figueira June 16, 2026
Quando pensamos em saúde cardiovascular, é comum que a atenção se volte para fatores como colesterol, pressão arterial, diabetes, obesidade e sedentarismo. Todos eles são, sem dúvida, importantes. No entanto, existe um problema silencioso que vem ganhando destaque na literatura científica e que ainda é pouco conhecido pela população: a sarcopenia . A palavra pode parecer complexa, mas o conceito é simples. Sarcopenia é a perda progressiva de massa muscular, força e desempenho físico que ocorre principalmente com o envelhecimento. Embora muitas pessoas enxerguem esse processo como uma consequência natural da idade, hoje sabemos que ele está associado a um aumento significativo do risco de doenças, internações, perda de independência e até mortalidade. Mais do que uma questão estética, a perda muscular é um importante marcador de saúde. Em muitos casos, pode representar um risco tão relevante quanto o excesso de gordura corporal. O músculo é muito mais do que movimento Durante muito tempo, os músculos foram vistos apenas como estruturas responsáveis pelos movimentos do corpo. Atualmente, a ciência entende que eles funcionam como um verdadeiro órgão metabólico. O tecido muscular participa do controle da glicose, da regulação hormonal, da resposta inflamatória e do equilíbrio energético do organismo. Em outras palavras, músculos saudáveis ajudam a proteger o coração, os vasos sanguíneos e praticamente todos os sistemas do corpo. Quando ocorre perda muscular significativa, o organismo se torna mais vulnerável a diversas doenças. Estudos demonstram que indivíduos com baixa massa muscular apresentam maior risco de desenvolver diabetes tipo 2, síndrome metabólica, fragilidade física, quedas, hospitalizações frequentes e doenças cardiovasculares. Além disso, a redução da musculatura frequentemente leva à diminuição da atividade física, criando um ciclo negativo que favorece o ganho de gordura corporal, o aumento da inflamação e a piora da saúde cardiovascular. A armadilha da balança Um dos aspectos mais interessantes da sarcopenia é que ela pode passar despercebida por muitos anos. Muitas pessoas acreditam estar saudáveis porque mantêm um peso aparentemente normal. Entretanto, o peso corporal isoladamente não conta toda a história. É possível perder massa muscular e ganhar gordura ao mesmo tempo, mantendo praticamente o mesmo peso na balança. Esse fenômeno é conhecido como obesidade sarcopênica. Nessa condição, o indivíduo apresenta excesso de gordura corporal associado à redução da massa muscular. O resultado é uma combinação particularmente perigosa, associada a maior inflamação sistêmica, pior controle metabólico e aumento do risco cardiovascular. Por isso, avaliar apenas o peso ou o índice de massa corporal (IMC) nem sempre é suficiente para compreender o verdadeiro estado de saúde de uma pessoa. O impacto da sarcopenia no coração A relação entre sarcopenia e doenças cardiovasculares tem despertado cada vez mais interesse entre pesquisadores. Diversos estudos demonstram que pacientes com perda muscular significativa apresentam maior incidência de insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana e complicações cardiovasculares em geral. Parte dessa associação pode ser explicada pela inflamação crônica de baixo grau, um processo biológico que acelera tanto a perda muscular quanto o desenvolvimento da aterosclerose. Outro fator importante é a redução da capacidade funcional. Quando os músculos perdem força, atividades simples do dia a dia tornam-se mais difíceis. O indivíduo passa a caminhar menos, sobe menos escadas, pratica menos exercícios e reduz progressivamente sua capacidade cardiorrespiratória. Com o passar dos anos, essa redução da atividade física contribui para um declínio ainda maior da saúde cardiovascular. O que a sarcopenia significa para pacientes cirúrgicos? Como cirurgião cardiovascular, observo diariamente a importância da reserva muscular na recuperação dos pacientes. Hoje sabemos que a condição física antes de uma cirurgia pode influenciar significativamente os resultados pós-operatórios. Pacientes com maior fragilidade muscular costumam apresentar maior risco de complicações, recuperação mais lenta, permanência prolongada em unidades de terapia intensiva e maior necessidade de reabilitação. Por outro lado, indivíduos que chegam ao procedimento com melhor condicionamento físico frequentemente apresentam recuperação mais rápida e retomam suas atividades de forma mais precoce. Esse conhecimento tem levado ao desenvolvimento do conceito de pré-habilitação , uma estratégia que busca preparar o paciente antes da cirurgia por meio de exercícios físicos, orientação nutricional e otimização das condições clínicas. Em vez de focar apenas no procedimento cirúrgico, a medicina moderna tem olhado cada vez mais para o paciente como um todo. Por que estamos perdendo músculos mais cedo? Embora o envelhecimento seja um dos principais fatores relacionados à sarcopenia, ele não é o único. O estilo de vida contemporâneo contribui de forma importante para esse problema. Longos períodos sentados, redução das atividades físicas diárias, alimentação inadequada, sono insuficiente e níveis elevados de estresse favorecem a perda gradual de massa muscular mesmo em pessoas relativamente jovens. Além disso, doenças crônicas como diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal crônica e câncer podem acelerar esse processo. O resultado é que muitos indivíduos chegam aos 50 ou 60 anos com uma reserva muscular muito inferior à que poderiam ter mantido ao longo da vida. É possível prevenir a sarcopenia? A boa notícia é que sim. Diferentemente de muitos fatores relacionados ao envelhecimento, a perda muscular pode ser retardada e, em muitos casos, parcialmente revertida. As principais estratégias incluem: Exercícios de força: A musculação e outras formas de treinamento resistido continuam sendo as intervenções mais eficazes para preservar e aumentar a massa muscular. Não se trata apenas de ganhar músculos por questões estéticas. Trata-se de preservar funcionalidade, independência e saúde cardiovascular. Alimentação adequada: A ingestão adequada de proteínas desempenha papel fundamental na manutenção da musculatura. Carnes magras, ovos, leite e derivados, leguminosas e outras fontes proteicas devem fazer parte de uma alimentação equilibrada, sempre respeitando as necessidades individuais. Atividade física regular: Além dos exercícios de força, caminhadas, ciclismo, natação e outras atividades aeróbicas ajudam a preservar a saúde cardiovascular e a capacidade funcional. Sono e recuperação: O processo de reconstrução muscular ocorre principalmente durante os períodos de descanso. Dormir mal está associado à pior recuperação muscular e ao aumento de marcadores inflamatórios.  Por muito tempo, o foco da medicina esteve em combater doenças já estabelecidas. Hoje, cada vez mais, buscamos identificar fatores que influenciam a saúde antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Nesse contexto, a sarcopenia surge como um dos grandes desafios do envelhecimento moderno. Não basta apenas viver mais. É preciso preservar a capacidade de caminhar, subir escadas, realizar atividades cotidianas e manter autonomia ao longo dos anos. A massa muscular deixou de ser apenas uma questão relacionada à força física. Ela passou a ser reconhecida como um dos pilares da saúde metabólica, cardiovascular e funcional. Quando falamos sobre prevenção cardiovascular, normalmente pensamos em controlar a pressão arterial, reduzir o colesterol ou evitar o tabagismo. Tudo isso continua fundamental. Mas existe uma mensagem que merece cada vez mais atenção: preservar músculos é preservar saúde. A perda progressiva de massa muscular não deve ser encarada como uma consequência inevitável da idade. Ela representa um sinal de alerta que pode impactar profundamente a qualidade de vida, a independência funcional e até mesmo os resultados de tratamentos complexos, incluindo cirurgias cardiovasculares. O envelhecimento saudável não depende apenas de um coração forte. Ele também exige músculos capazes de sustentar a autonomia, a mobilidade e a vitalidade ao longo da vida. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer hoje não seja apenas "como está o meu colesterol?", mas também: "como está a minha força?".
By Fernando Figueira June 13, 2026
A cirurgia cardiovascular vive um momento fascinante. Ao longo das últimas décadas, os avanços da cirurgia de peito aberto transformaram doenças antes fatais em condições tratáveis, permitindo que milhões de pessoas recuperassem sua qualidade de vida e ganhassem anos de vida com segurança e excelentes resultados. Como cirurgião cardiovascular, acompanho de perto essa evolução. E uma das questões mais interessantes da atualidade é observar como novas tecnologias vêm ampliando as opções terapêuticas disponíveis para os pacientes. É importante destacar, entretanto, que inovação não significa substituição. A cirurgia convencional continua sendo o tratamento de escolha para muitos casos e segue oferecendo resultados extraordinários quando bem indicada. O que estamos presenciando é uma ampliação do arsenal terapêutico da cardiologia e da cirurgia cardiovascular, permitindo que cada paciente receba um tratamento cada vez mais personalizado. Entre essas inovações, uma das que mais chamam atenção é o MitraClip, uma tecnologia minimamente invasiva desenvolvida para o tratamento da insuficiência mitral em pacientes com alto risco cirúrgico. Entendendo a insuficiência mitral A válvula mitral é responsável por controlar o fluxo sanguíneo entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. Quando ela não consegue fechar adequadamente, parte do sangue retorna na direção contrária durante a contração do coração. Essa condição é chamada insuficiência mitral. Dependendo da gravidade do problema, o paciente pode apresentar sintomas como falta de ar, cansaço aos esforços, palpitações, redução da capacidade física e episódios frequentes de insuficiência cardíaca. Durante muitos anos, a cirurgia convencional foi a principal alternativa para corrigir esse defeito. E continua sendo, em muitos casos, a melhor opção disponível. Os procedimentos cirúrgicos permitem reparar ou substituir a válvula mitral com excelentes índices de sucesso e durabilidade. Em pacientes adequadamente selecionados, especialmente aqueles com menor risco cirúrgico, a cirurgia continua sendo considerada o padrão de referência para o tratamento da insuficiência mitral significativa. No entanto, existe um grupo de pacientes que apresenta um desafio especial: idosos muito fragilizados, portadores de múltiplas doenças associadas ou pessoas que já passaram por procedimentos cardíacos anteriores e possuem risco elevado para uma nova cirurgia. Foi justamente para esse perfil de paciente que surgiram as terapias transcateter. O que é o MitraClip? O MitraClip é um dispositivo utilizado em um procedimento chamado reparo transcateter borda a borda da válvula mitral, conhecido internacionalmente como TEER (Transcatheter Edge-to-Edge Repair) . Diferentemente da cirurgia convencional, o procedimento é realizado por meio de um cateter introduzido pela veia femoral, na região da virilha. Guiado por exames de imagem em tempo real, o dispositivo é levado até a válvula mitral, onde promove a aproximação dos seus folhetos, reduzindo o refluxo sanguíneo. O conceito não é totalmente novo para os cirurgiões cardiovasculares. Na verdade, ele reproduz por via percutânea princípios já conhecidos da técnica cirúrgica desenvolvida por Ottavio Alfieri, amplamente utilizada no reparo da válvula mitral. A grande diferença está na forma de acesso ao coração, evitando a abertura do tórax e a necessidade de circulação extracorpórea em pacientes selecionados. Cirurgia convencional e procedimentos minimamente invasivos: concorrentes ou aliados? Uma dúvida comum entre pacientes é se as novas tecnologias irão substituir a cirurgia cardíaca tradicional. A resposta é simples: não. A cirurgia convencional permanece insubstituível em diversas situações clínicas. Muitos pacientes se beneficiam de reparos valvares complexos que somente a cirurgia consegue oferecer. Além disso, os resultados de longo prazo da cirurgia continuam sendo extremamente consistentes, especialmente em pacientes mais jovens e com anatomia favorável. Por outro lado, tecnologias como o MitraClip permitem tratar pacientes que muitas vezes não teriam condições de enfrentar uma cirurgia convencional com segurança. Portanto, não se trata de escolher entre uma técnica ou outra. O mais importante é identificar qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre eficácia, segurança e qualidade de vida para cada indivíduo. Essa é justamente a essência da medicina moderna: personalizar o tratamento. O que mostram os estudos? O principal estudo que consolidou o papel do MitraClip foi o COAPT, publicado inicialmente no New England Journal of Medicine. A pesquisa avaliou pacientes com insuficiência mitral secundária grave associada à insuficiência cardíaca que permaneciam sintomáticos apesar do tratamento clínico otimizado. Os resultados foram expressivos. Os pacientes submetidos ao procedimento apresentaram redução significativa das hospitalizações por insuficiência cardíaca, melhora da qualidade de vida e redução da mortalidade quando comparados ao tratamento clínico isolado. Em uma das análises mais conhecidas do estudo, a taxa de hospitalização por insuficiência cardíaca em dois anos caiu de 56,4% para 34,8% entre os pacientes tratados com o dispositivo. Além disso, eles passaram mais tempo vivos e fora do ambiente hospitalar. Esses resultados contribuíram para que o MitraClip fosse incorporado às principais diretrizes internacionais para pacientes criteriosamente selecionados. Mas os resultados do MitraClip não se restringem aos grandes centros internacionais. No Brasil, a experiência com o MitraClip já acumula mais de uma década. Em um dos primeiros relatos nacionais publicados na Revista Brasileira de Cardiologia Invasiva, equipes do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Pró-Cardíaco documentaram os dois primeiros casos realizados no país. Em ambos os pacientes, considerados de alto risco para cirurgia convencional, houve redução significativa da insuficiência mitral após o implante do dispositivo, reforçando a viabilidade e a segurança da técnica em nosso meio. Desde então, o crescimento dos programas de cardiologia estrutural em hospitais de referência tem ampliado o acesso a esse tipo de tratamento, acompanhando uma tendência mundial de expansão das terapias minimamente invasivas. O futuro da cirurgia cardiovascular Quando observamos a evolução da cardiologia nas últimas décadas, fica claro que estamos caminhando para um cenário cada vez mais integrado. Procedimentos como TAVI, MitraClip, intervenções estruturais complexas, planejamento por imagem tridimensional, inteligência artificial e plataformas robóticas estão transformando a forma como avaliamos e tratamos as doenças cardiovasculares. Ao mesmo tempo, a cirurgia cardíaca convencional continua evoluindo. Novas técnicas de preservação de tecidos, avanços anestésicos, melhor controle perioperatório e o refinamento dos procedimentos reconstrutivos têm contribuído para resultados cada vez melhores. Por isso, acredito que o futuro não pertence exclusivamente às terapias percutâneas nem exclusivamente à cirurgia convencional. O futuro pertence à integração dessas abordagens. O conceito de Heart Team — no qual cirurgiões, cardiologistas clínicos, hemodinamicistas, especialistas em imagem e outros profissionais discutem conjuntamente cada caso — representa exatamente essa nova visão da medicina cardiovascular. A história da cirurgia cardíaca sempre foi marcada pela inovação. O que hoje consideramos procedimentos tradicionais já foi, um dia, uma revolução tecnológica. O MitraClip é mais um capítulo dessa trajetória. Ele não substitui a cirurgia convencional, mas amplia as possibilidades de tratamento para pacientes que antes possuíam poucas alternativas terapêuticas. Como cirurgiões cardiovasculares, temos o compromisso de acompanhar essas transformações sem perder de vista aquilo que permanece essencial: oferecer ao paciente o tratamento mais adequado, baseado em evidências científicas, experiência clínica e avaliação individualizada.  A verdadeira evolução da medicina não está em trocar uma técnica por outra. Está em utilizar o melhor de cada tecnologia para alcançar o mesmo objetivo que sempre guiou nossa profissão: cuidar das pessoas da forma mais segura, eficaz e humana possível.
By Fernando Figueira May 30, 2026
O tabagismo ainda é frequentemente tratado como uma escolha simples. Uma decisão individual que poderia ser resolvida com disciplina. Na prática, não é assim. Fumar envolve dependência química, comportamento e contexto social ao mesmo tempo. Reduzir esse fenômeno à falta de força de vontade ignora décadas de evidência científica e também a forma como o próprio hábito foi construído ao longo da história. A nicotina age diretamente no cérebro, estimulando áreas ligadas ao prazer e à recompensa. Esse mecanismo cria um ciclo que reforça o comportamento e dificulta sua interrupção. Não se trata apenas de gosto ou costume. Trata-se de uma dependência com base biológica, que altera o funcionamento do organismo e ajuda a explicar por que muitas pessoas continuam fumando mesmo conhecendo os riscos. Esses riscos são amplos e bem documentados. O cigarro está associado a doenças respiratórias como Doença pulmonar obstrutiva crônica, além de diferentes tipos de câncer e doenças cardiovasculares . Segundo a Organização Mundial da Saúde , o tabaco é responsável por mais de 8 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, ele segue como um dos principais fatores de risco evitáveis para infarto e acidente vascular cerebral. Um hábito que foi construído ao longo do tempo Mas o tabagismo não se sustenta apenas pela dependência biológica. Existe um componente histórico importante. Durante grande parte do século XX, fumar foi associado a status, liberdade e até sucesso. A indústria do tabaco investiu fortemente em publicidade, influenciando comportamentos e normalizando o hábito em diferentes contextos sociais. Essa herança ainda se reflete hoje, mesmo com a redução do número de fumantes. Nas últimas décadas, o Brasil se destacou internacionalmente pelo enfrentamento do tabagismo. Medidas como restrição de propaganda, aumento de impostos, advertências nas embalagens e ambientes livres de fumo contribuíram para uma queda consistente no número de fumantes. Dados do Ministério da Saúde mostram esse avanço, embora milhões de brasileiros ainda fumem. Parar de fumar, portanto, não é um evento isolado. É um processo. Muitas pessoas tentam várias vezes até conseguir. A recaída faz parte desse caminho e não deve ser interpretada como fracasso, mas como etapa de mudança de comportamento. Existe também uma relação direta entre tabagismo e desigualdade social. O hábito é mais frequente em populações em situação de maior vulnerabilidade, onde fatores como estresse, insegurança econômica e acesso limitado a serviços de saúde dificultam a interrupção. O desafio atual vai além do indivíduo  Outro ponto relevante é que os danos do tabaco não se restringem ao longo prazo. O impacto no sistema cardiovascular começa cedo, com alterações na circulação e aumento do risco de eventos graves. Em muitos casos, o cigarro acelera processos que já estavam em curso. Nos últimos anos, novos dispositivos, como cigarros eletrônicos, passaram a ocupar espaço nesse cenário. Muitas vezes apresentados como alternativas mais seguras, eles mantêm a dependência de nicotina e levantam preocupações importantes, especialmente pelo aumento do uso entre jovens. A percepção de menor risco pode recriar um ciclo que levou décadas para ser reduzido. O tabagismo também afeta quem não fuma. A exposição passiva continua sendo um problema relevante, principalmente em ambientes familiares. Crianças estão entre as mais vulneráveis, o que amplia o impacto do cigarro na sociedade.Apesar de todos esses desafios, parar de fumar traz benefícios rápidos e consistentes. Em poucas semanas, já há melhora da circulação e da função respiratória. Ao longo do tempo, o risco cardiovascular diminui de forma significativa. Parar de fumar é uma das decisões mais importantes para a saúde, especialmente para o coração. Mas não é simples, nem imediato, nem igual para todos. Reconhecer essa complexidade muda a forma como o problema é abordado. Sai a ideia de falha individual e entra uma compreensão mais ampla, que envolve biologia, história e contexto social. É a partir dessa mudança que o cuidado se torna mais efetivo.
By Fernando Figueira May 24, 2026
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By Fernando Figueira May 24, 2026
Falar de Hipertensão arterial é falar de um problema que está em praticamente todas as casas brasileiras, mesmo quando ninguém percebe. No Brasil, cerca de um em cada quatro adultos relata ter pressão alta , e esse número cresce com a idade, ultrapassando 60% entre idosos. Ainda assim, a hipertensão segue sendo tratada como algo secundário, quase banal. Isso acontece porque ela não dói. Não limita de forma imediata. Não interrompe a rotina. Ao contrário de outras doenças, a hipertensão permite que a vida siga aparentemente normal. E é justamente aí que está o problema. Quando os sintomas aparecem, muitas vezes o dano já está instalado. Mais do que escolha, uma questão de contexto Mas reduzir a hipertensão a uma questão individual seria simplificar demais. A pressão alta acompanha a forma como vivemos. Jornadas longas de trabalho, alimentação baseada em ultraprocessados, pouco tempo para atividade física e dificuldade de acesso à saúde fazem parte dessa equação, como mostram levantamentos do Vigitel . Os dados mostram que a doença também é desigual. Pessoas com menor escolaridade têm maior prevalência. Não é só sobre escolher mudar hábitos. É sobre ter condições reais para isso. Muitas pessoas só descobrem que têm pressão alta quando procuram atendimento por outro motivo. E, mesmo após o diagnóstico, manter o tratamento ao longo do tempo nem sempre é simples. A hipertensão exige constância, mas a vida cotidiana nem sempre permite. O desafio não é só tratar, é tornar visível Existe ainda um ponto pouco discutido. Muitas pessoas só descobrem que têm pressão alta quando procuram atendimento por outro motivo. Isso revela uma falha importante na prevenção. A hipertensão não é apenas uma doença mal controlada. É, muitas vezes, uma doença não diagnosticada. Outro ponto importante é a dificuldade de manter o tratamento ao longo do tempo. Mesmo entre pessoas diagnosticadas, a adesão costuma ser irregular. Isso acontece por diferentes motivos. Há quem abandone o uso de medicamentos por não sentir sintomas, quem enfrente efeitos colaterais, e também quem tenha dificuldade de manter acompanhamento contínuo na rede de saúde. A hipertensão exige constância, mas a vida cotidiana nem sempre permite essa regularidade. Além disso, existe uma percepção cultural de que pressão alta faz parte do envelhecimento, como se fosse inevitável. Essa ideia contribui para a naturalização da doença e reduz a urgência em controlá-la. No entanto, embora a prevalência aumente com a idade, isso não significa que suas consequências sejam aceitáveis. Outro desafio está na comunicação. Muitas vezes, o diagnóstico é dado de forma rápida, sem que a pessoa compreenda plenamente o que aquilo significa no longo prazo. Sem entendimento, não há engajamento. E sem engajamento, o cuidado se perde ao longo do tempo. Tornar a hipertensão visível passa também por melhorar a forma como ela é explicada. Não como um número isolado, mas como um risco acumulado que pode ser modificado. Pequenas mudanças sustentadas ao longo do tempo têm impacto real, especialmente quando são possíveis dentro da realidade de cada pessoa.  A pressão alta não é invisível por acaso. Ela é invisível porque se mistura à rotina, às escolhas possíveis e às limitações do dia a dia. Torná-la visível é o primeiro passo para mudar esse cenário. Não apenas no indivíduo, mas na forma como a sociedade organiza sua própria saúde.
By Fernando Figueira May 14, 2026
Durante muito tempo a regra era esperar Por muitos anos, a lógica na medicina cardiovascular foi relativamente simples. Enquanto os sintomas fossem leves ou inexistentes, a conduta mais comum era acompanhar. A cirurgia ficava como última etapa, indicada quando o quadro já estivesse mais avançado ou quando a limitação passasse a impactar a vida diária. Essa abordagem fazia sentido em um contexto em que os procedimentos eram mais invasivos, com maior risco e recuperação mais prolongada. Operar cedo poderia significar expor o paciente a riscos desnecessários. Por isso, esperar era visto como uma forma de proteção. Essa ideia ainda está muito presente no senso comum. Muitos pacientes associam cirurgia cardíaca a um ponto extremo da doença, como se fosse uma última alternativa. O que vem mudando na prática Com o avanço da medicina, essa lógica começou a ser revisada. Hoje se entende que, em algumas condições, esperar pode não ser a melhor estratégia. Em doenças como doença valvar cardíaca , por exemplo, o momento da intervenção faz diferença direta no resultado. Mesmo antes do aparecimento de sintomas, o coração pode já estar sofrendo alterações silenciosas. Ao longo do tempo, isso pode comprometer sua função de forma progressiva. De forma mais ampla, o próprio Ministério da Saúde destaca que as doenças cardiovasculares seguem como uma das principais causas de morte no Brasil, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado. Isso ajuda a entender por que a medicina passou a olhar com mais atenção para o tempo certo de intervir. Não apenas quando os sintomas aparecem, mas antes que o dano se torne mais difícil de reverter. Nem sempre esperar é mais seguro Um dos principais pontos dessa mudança é entender que ausência de sintoma não significa ausência de risco. Em alguns casos, o paciente pode se sentir bem enquanto o coração já está em sobrecarga. Quando a intervenção acontece tardiamente, parte desse impacto pode já estar consolidado. Isso influencia diretamente a recuperação e, em muitos casos, a qualidade de vida depois do tratamento. Além disso, com a evolução das técnicas, hoje existem opções mais modernas, como procedimentos menos invasivos no coração , que permitem tratar determinados casos com mais segurança e recuperação mais rápida. Isso também contribui para repensar o momento ideal da intervenção. Outro ponto importante é que a decisão não envolve apenas sobrevida, mas qualidade de vida. Intervenções feitas no momento adequado podem evitar limitações progressivas, internações frequentes e perda de autonomia. Isso é especialmente relevante em uma população que vive mais e convive por mais tempo com doenças crônicas. O objetivo deixa de ser apenas tratar e passa a incluir preservar a funcionalidade e o bem-estar ao longo dos anos. Uma decisão que não é igual para todo mundo Apesar dessa mudança, não existe uma regra única. A decisão de operar mais cedo ou esperar depende de uma análise individual, que leva em conta exames, evolução da doença e contexto de vida. Por isso, o acompanhamento médico regular continua sendo essencial. É ele que permite identificar o melhor momento de agir. A principal mudança talvez não esteja apenas nas técnicas, mas na forma de pensar. A cirurgia deixou de ser vista como último recurso e passou a ser considerada parte do cuidado em saúde. Em vez de esperar o pior momento, a medicina caminha para identificar o melhor momento e essa diferença muda tudo. Se você quer acompanhar mais conteúdos sobre saúde do coração com uma abordagem clara e baseada em evidência, siga meus perfis nas redes sociais.
By Fernando Figueira April 30, 2026
Um esgotamento que não é só mental Sentir-se cansado no fim do dia é esperado. O problema é quando esse cansaço deixa de ser pontual e passa a ser constante, quando descansar já não resolve e a sensação de estar sempre em alerta se torna parte da rotina. O burnout surge exatamente nesse contexto. Reconhecido como uma síndrome relacionada ao trabalho, ele não aparece de forma abrupta. Vai se instalando aos poucos, muitas vezes silenciosamente, até que o corpo começa a dar sinais mais claros de que algo não está bem. E esses sinais não ficam restritos à saúde mental. O corpo também sente e o coração responde O organismo humano não separa emoção de funcionamento físico. Situações de estresse ativam mecanismos de defesa importantes, com liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Em momentos pontuais, isso é esperado. O problema é quando esse estado se prolonga. Sob estresse crônico, o corpo permanece em um nível elevado de alerta. A frequência cardíaca se mantém mais alta, a pressão arterial pode se elevar e processos inflamatórios passam a ocorrer de forma contínua, ainda que em níveis baixos. Ao longo do tempo, esse conjunto de fatores pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Estudos já associam o estresse crônico a maior incidência de hipertensão, alterações no ritmo do coração e eventos cardíacos, especialmente quando combinado a outros fatores como sedentarismo e alimentação desregulada. Quando os sinais aparecem no dia a dia O burnout raramente se apresenta de forma óbvia. Muitas vezes, ele começa com um cansaço persistente, uma dificuldade de concentração ou uma irritação fora do habitual. Com o tempo, esse quadro pode evoluir para um distanciamento emocional, perda de interesse pelas atividades e uma sensação constante de sobrecarga. Do ponto de vista físico, não é incomum que surjam sintomas como palpitações, sensação de aperto no peito, falta de ar ou um cansaço que não melhora com o descanso. Na prática clínica, é frequente que pacientes procurem atendimento por esses sintomas sem associá-los ao contexto emociona, o que reforça a importância de uma avaliação mais ampla, que considere não apenas exames, mas também a forma como aquela pessoa está vivendo. Cuidar da saúde também é rever o ritmo Falar de coração não é falar apenas de procedimentos ou diagnósticos. É, sobretudo, falar de contexto. Rotinas intensas, jornadas prolongadas, dificuldade de desconectar do trabalho e pouca qualidade de descanso fazem parte da realidade de muitas pessoas hoje. E tudo isso impacta diretamente a saúde. Cuidar, nesse cenário, passa por reconhecer limites, algo que nem sempre é simples. Pequenas mudanças, como reorganizar horários, melhorar a qualidade do sono ou buscar apoio profissional, podem ter efeitos importantes quando mantidas ao longo do tempo. Prevenção também passa por desacelerar  O burnout se tornou cada vez mais comum, mas isso não significa que deva ser normalizado. Identificar os sinais precocemente é uma forma de prevenção — não apenas de transtornos emocionais, mas também de doenças que podem afetar o coração.Em um contexto onde acelerar é quase uma exigência, desacelerar pode ser, na verdade, uma decisão de cuidado.
By Fernando Figueira April 30, 2026
Por muito tempo, a hipertensão foi associada quase exclusivamente ao envelhecimento. A ideia de que pressão alta é uma condição “natural da idade” ainda está presente no imaginário coletivo e isso tem consequências. O principal problema dessa percepção é que ela faz com que pessoas mais jovens simplesmente não se enxerguem em risco. Não medem a pressão, não se preocupam com sinais e, muitas vezes, só descobrem a condição quando ela já está instalada há anos. Hoje, esse cenário vem mudando. Um diagnóstico cada vez mais precoce Dados epidemiológicos mostram um aumento progressivo no número de adultos jovens diagnosticados com hipertensão. No Brasil, estimativas apontam que cerca de 1 em cada 4 adultos tem pressão alta e uma parcela relevante desses casos já aparece antes dos 40 anos. Esse crescimento não acontece por acaso. Ele acompanha mudanças no estilo de vida, como por exemplo, maior consumo de alimentos ultraprocessados, excesso de sódio na dieta, sedentarismo, pior qualidade do sono e níveis elevados de estresse. O que antes era mais comum em faixas etárias mais avançadas, hoje começa a aparecer mais cedo, muitas vezes de forma silenciosa. O risco de minimizar o problema Talvez um dos maiores desafios em relação à hipertensão seja justamente o fato de ela não causar sintomas evidentes na maioria dos casos. Sem dor, sem desconforto imediato, é fácil ignorar. E, entre os mais jovens, isso se soma à ideia de que “ainda não é a hora de se preocupar com isso”. Mas a pressão alta não deixa de agir por falta de sintomas. Ao longo do tempo, ela pode provocar alterações nos vasos sanguíneos e sobrecarregar o coração, aumentando o risco de eventos cardiovasculares no futuro. Quando o diagnóstico acontece tardiamente, muitas dessas mudanças já estão em curso. Idade não é proteção  Existe uma tendência perigosa de associar saúde apenas à juventude. Como se ser jovem fosse, por si só, um fator de proteção suficiente. Na prática, não é. A idade pode influenciar o risco, mas não elimina a possibilidade de adoecimento. Quando hábitos de vida desfavoráveis estão presentes, o organismo responde — independentemente da faixa etária. Ignorar isso é adiar um cuidado que poderia começar muito antes. Diferente de muitas condições, a hipertensão pode ser identificada com uma medida simples: aferir a pressão arterial. Ainda assim, esse é um hábito pouco incorporado por pessoas mais jovens. Muitas vezes, o contato com esse tipo de avaliação só acontece em situações pontuais — e não como parte de um acompanhamento regular. Ampliar essa percepção é um passo importante. Não se trata de antecipar preocupação, mas de incorporar cuidado. Falar de hipertensão hoje é, necessariamente, falar de prevenção em todas as idades. Isso envolve escolhas cotidianas, mas também acesso à informação e acompanhamento adequado. A hipertensão não costuma dar sinais claros, e é exatamente isso que sustenta a falsa sensação de segurança. Enquanto parece distante, ela pode já estar presente, evoluindo de forma silenciosa. Mudar essa percepção é parte essencial do cuidado.
By Fernando Figueira April 11, 2026
Durante muito tempo, o infarto agudo do miocárdio foi associado quase exclusivamente ao envelhecimento. A imagem clássica do paciente cardiopata ainda remete a indivíduos mais velhos, com histórico de doenças acumuladas ao longo da vida. No entanto, essa realidade vem mudando e de forma preocupante. Nos últimos anos, o Brasil tem observado um aumento consistente de infartos em pessoas jovens. Dados do próprio sistema de saúde mostram que as internações por infarto em indivíduos com menos de 39 anos mais que dobraram nas últimas décadas . Esse crescimento evidencia uma mudança importante no perfil da doença cardiovascular. Uma mudança silenciosa no perfil da doença O que antes era considerado um evento raro em jovens passou a ser cada vez mais frequente. Segundo dados do Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares continuam sendo uma das principais causas de morte no país, e o avanço entre pessoas mais jovens já é motivo de alerta entre especialistas . Mais do que números, o que chama atenção é o padrão desses pacientes. Muitos não apresentam histórico clássico de doença cardíaca, o que reforça a ideia de que estamos diante de um novo perfil de risco. De acordo com levantamento divulgado pela Agência Brasil, cerca de um em cada quatro jovens já apresenta alterações como pressão elevada ou colesterol alterado antes dos 40 anos , muitas vezes sem diagnóstico . A matéria completa está disponível aqui: Estilo de vida leva jovens a apresentarem risco cardíaco O impacto do estilo de vida contemporâneo Esse novo cenário não pode ser explicado por um único fator. Ele reflete, principalmente, mudanças profundas no estilo de vida. Entre os principais pontos estão: Sedentarismo prolongado, especialmente associado ao tempo excessivo em telas Alimentação baseada em ultraprocessados Privação de sono Estresse crônico Uso de cigarros eletrônicos (vapes) Especialistas apontam que o cigarro eletrônico, muitas vezes visto como alternativa “mais segura”, pode ter impacto significativo no sistema cardiovascular, inclusive com concentrações elevadas de nicotina . Além disso, o aumento do uso de anabolizantes e outras substâncias também vem sendo associado ao crescimento dos casos em jovens, ampliando ainda mais o risco cardiovascular . Um processo silencioso e progressivo Um dos aspectos mais preocupantes do infarto em jovens é justamente o seu caráter silencioso. Diferente do que muitos imaginam, o evento agudo é apenas o desfecho de um processo que começa anos antes. A formação de placas nas artérias, a inflamação vascular e as alterações metabólicas evoluem de forma gradual, muitas vezes sem sintomas evidentes. Esse processo é agravado pelo fato de que muitos jovens não realizam acompanhamento médico regular. Como consequência, fatores de risco como hipertensão, colesterol elevado e resistência à insulina permanecem sem diagnóstico. Prevenção precoce: um novo paradigma necessário Diante desse cenário, a principal mudança não está apenas no tratamento mas na forma de encarar a prevenção. O infarto em jovens não é um evento isolado. Ele é o resultado de uma combinação de fatores que se acumulam ao longo do tempo. E, por isso, a prevenção precisa começar mais cedo. Isso envolve: Atenção aos sinais do corpo Avaliação periódica de fatores de risco Mudanças sustentáveis no estilo de vida E, principalmente, consciência de que saúde cardiovascular não tem idade  A cardiologia contemporânea caminha para uma abordagem cada vez mais preventiva e integrada. E talvez o maior desafio hoje não seja tratar o infarto, mas evitar que ele aconteça. Para ficar por dentro de mais conteúdos sobre saúde cardiovascular, acompanhe também nas redes sociais Instagram e Linkedin sempre com conteúdos atualizados, baseados em evidência e com uma abordagem acessível sobre o cuidado com o coração.