Cardiopatias congênitas na vida adulta e os novos caminhos do tratamento
Quando se fala em cardiopatia congênita, é comum pensar em bebês ou crianças que precisam de cirurgia logo nos primeiros anos de vida. Mas os avanços no diagnóstico e no tratamento mudaram essa realidade. Hoje, muitas pessoas que nasceram com alterações no coração chegam à adolescência e à vida adulta e seguem suas vidas com acompanhamento médico especializado.
As cardiopatias congênitas são alterações na estrutura ou no funcionamento do coração que surgem ainda durante a formação do bebê. Elas podem apresentar diferentes níveis de gravidade. algumas exigem intervenção logo após o nascimento, enquanto outras podem ser acompanhadas ao longo do tempo. Segundo o Ministério da Saúde, essas condições ocorrem em aproximadamente um a cada 100 nascidos vivos.
O fato de uma cardiopatia ter sido tratada na infância, portanto, não significa necessariamente que o acompanhamento possa ser encerrado. Para algumas pessoas, o cuidado cardiovascular continua sendo importante durante a adolescência e a vida adulta.
Quando o tratamento acompanha o paciente ao longo da vida
Uma pessoa que nasceu com uma cardiopatia pode ter passado por cirurgia, cateterismo ou outro procedimento ainda na infância e, anos depois, precisar de novas avaliações. Isso acontece porque o coração continua mudando ao longo da vida e porque algumas alterações podem surgir ou se modificar com o passar dos anos.
Dependendo do tipo de cardiopatia e do tratamento realizado, o acompanhamento pode incluir exames de imagem, avaliação da função cardíaca, investigação de alterações do ritmo do coração e acompanhamento das válvulas cardíacas. O objetivo não é apenas identificar problemas quando eles aparecem, mas acompanhar a evolução do paciente e reconhecer precocemente situações que possam exigir uma nova intervenção.
O próprio Ministério da Saúde destaca que as anomalias congênitas podem demandar cuidados especializados, cirurgias e acompanhamento multiprofissional em diferentes fases da vida. A página do Ministério da Saúde sobre anomalias congênitas reúne informações sobre diagnóstico, tratamento e acompanhamento.
Novas tecnologias ampliam as possibilidades de tratamento
A cardiologia também passou por uma transformação importante nas últimas décadas. Procedimentos que antes exigiam cirurgias mais complexas podem, em determinados casos, ser realizados por meio de cateteres e técnicas menos invasivas. Essa evolução é especialmente relevante para pessoas que já passaram por cirurgias cardíacas ou que apresentam condições que tornam uma nova cirurgia mais complexa. A escolha do procedimento, entretanto, depende das características de cada paciente, do tipo de cardiopatia e da avaliação de uma equipe especializada.
A inovação também está mudando a forma como o cuidado pode ser oferecido. Em 2025, o SUS realizou em Pernambuco a primeira cirurgia cardíaca pediátrica com teleorientação, conectando a equipe que estava no centro cirúrgico a especialistas de referência em outro local. A iniciativa foi criada para ampliar o acesso à assistência especializada e reduzir desigualdades regionais.
O procedimento não significa que uma cirurgia seja realizada à distância. A equipe médica está presente no hospital onde o paciente é atendido, enquanto especialistas de um centro de referência podem acompanhar o procedimento em tempo real e oferecer orientação técnica. É um exemplo de como a tecnologia pode contribuir não apenas para criar novos tratamentos, mas também para aproximar conhecimento especializado de pacientes que vivem longe dos grandes centros.
O papel do SUS no cuidado das cardiopatias congênitas
O tratamento de uma cardiopatia congênita pode exigir diferentes níveis de atenção ao longo da vida. Por isso, o acesso a centros especializados é uma parte importante desse cuidado. No Sistema Único de Saúde, o Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio de Janeiro, é referência do Ministério da Saúde em tratamentos de alta complexidade em doenças cardíacas. O instituto atua em procedimentos hemodinâmicos e cirurgias cardíacas de alta complexidade, incluindo procedimentos neonatais, e é um dos principais centros públicos brasileiros em cirurgias de cardiopatias congênitas.
A existência de centros de referência é importante porque pacientes adultos com cardiopatia congênita podem apresentar necessidades diferentes das observadas na infância. O cuidado precisa considerar não apenas a alteração cardíaca original, mas também o histórico de cirurgias, procedimentos realizados, medicamentos em uso e possíveis repercussões ao longo do tempo.
Viver com uma cardiopatia não significa deixar de viver
Os avanços da medicina fizeram com que muitas pessoas com cardiopatias congênitas chegassem à vida adulta com autonomia e qualidade de vida. O desafio passa a ser garantir que essa trajetória seja acompanhada de cuidado contínuo e adequado às necessidades de cada fase. Por isso, uma cardiopatia corrigida ou controlada não deve ser entendida como uma condição que ficou necessariamente no passado. O acompanhamento permite avaliar como o coração está funcionando, reconhecer mudanças e discutir, quando necessário, novas possibilidades de tratamento.
A evolução da cardiologia mostra que o cuidado também pode mudar com o tempo. Técnicas menos invasivas, novas tecnologias de imagem, procedimentos por cateter e ferramentas de telemedicina ampliam as possibilidades de acompanhamento e tratamento. Para quem nasceu com uma cardiopatia, o futuro não é definido apenas pelo diagnóstico recebido na infância. Ele também é construído pelo acompanhamento ao longo da vida, pelo acesso a serviços especializados e pelos avanços que continuam transformando a forma de cuidar do coração.










