Enxaqueca e risco cardiovascular: O que a dor de cabeça tem a ver com o coração?
A enxaqueca costuma ser lembrada como uma condição neurológica marcada por dores de cabeça intensas, náusea e sensibilidade à luz e aos sons. Mas, para algumas pessoas, a doença envolve manifestações que vão além da dor. Alterações visuais, formigamento, dificuldade para falar e outros sintomas neurológicos podem aparecer antes ou durante uma crise.
Esses sintomas são conhecidos como aura e estão presentes em uma parcela das pessoas com enxaqueca. A aura pode se manifestar como pontos luminosos, flashes, linhas em zigue-zague, alterações no campo visual, formigamento ou dificuldades temporárias de linguagem. A Veja Saúde explica os principais sintomas da enxaqueca com aura e como essas manifestações podem ser confundidas com outros problemas neurológicos.
É justamente essa forma de enxaqueca que chama a atenção quando o assunto é saúde cardiovascular. Estudos vêm identificando uma associação entre enxaqueca com aura e um risco maior de alguns eventos vasculares, especialmente o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico.
Por que uma doença neurológica pode estar relacionada ao coração?
A conexão começa nos vasos sanguíneos. A enxaqueca é uma doença neurológica complexa, que envolve o funcionamento do cérebro e das estruturas responsáveis pela percepção da dor. Durante uma crise, ocorrem alterações na atividade cerebral e em mecanismos relacionados à comunicação entre o sistema nervoso e os vasos sanguíneos.
A relação entre esses mecanismos e a saúde cardiovascular ainda é estudada. Pesquisadores investigam, entre outros aspectos, alterações vasculares, inflamação e funcionamento das plaquetas como possíveis fatores envolvidos na associação entre enxaqueca com aura e eventos vasculares.
Em entrevista ao Drauzio Varella, o neurologista Mario Peres explica os mecanismos envolvidos na enxaqueca e o que acontece no cérebro durante as crises. A compreensão desses mecanismos ajuda a explicar por que uma condição neurológica pode também despertar interesse da medicina cardiovascular.
O que as pesquisas mostram é uma associação mais consistente entre enxaqueca com aura e acidente vascular cerebral isquêmico. Um estudo publicado no JAMA acompanhou mais de 27 mil mulheres por mais de duas décadas e encontrou uma maior incidência de eventos cardiovasculares entre aquelas que apresentavam enxaqueca com aura.
Isso não significa que uma pessoa que tem enxaqueca esteja destinada a desenvolver uma doença cardiovascular. A maioria das pessoas com enxaqueca não terá um AVC por causa da condição. O risco individual depende também de outros fatores, como pressão alta, tabagismo, diabetes, obesidade e histórico cardiovascular.
Quando a enxaqueca merece uma atenção maior?
A presença de aura é um dos pontos que merece atenção, mas não é o único. A combinação de enxaqueca com aura com outros fatores de risco cardiovascular pode exigir uma avaliação mais cuidadosa. O controle da pressão arterial, a prática regular de atividade física, uma alimentação equilibrada e a ausência do tabagismo são medidas importantes para reduzir o risco cardiovascular de maneira geral.
Essa atenção é particularmente relevante entre mulheres mais jovens, grupo em que a associação entre enxaqueca com aura e AVC foi observada de forma consistente em estudos. Isso não significa que toda mulher com aura apresente alto risco, mas reforça a importância de conhecer os demais fatores que podem ser modificados.
Outro ponto que merece cuidado é o uso de contraceptivos hormonais. A relação entre enxaqueca com aura, contraceptivos que contêm estrogênio e risco de AVC é complexa e depende de características individuais. Por isso, a escolha do método contraceptivo deve ser discutida com um profissional de saúde, considerando o histórico de cada paciente.
Nem toda aura é apenas uma aura
Existe ainda uma questão importante: alguns sintomas de aura podem se parecer com os sinais de um AVC. Alterações visuais, dormência, formigamento e dificuldade para falar podem ocorrer em ambos os casos. Na aura típica, os sintomas costumam se desenvolver gradualmente e desaparecer depois de algum tempo. Já um AVC pode surgir de forma súbita e provocar déficits persistentes ou diferentes daqueles que a pessoa está acostumada a apresentar durante suas crises.
Por isso, sintomas neurológicos novos, muito diferentes do padrão habitual ou que surgem de forma repentina precisam de avaliação médica imediata. Não é seguro atribuir automaticamente uma alteração visual, uma dificuldade para falar ou uma fraqueza a uma crise de enxaqueca, especialmente quando aquele sintoma nunca aconteceu antes.
A relação entre enxaqueca e risco cardiovascular mostra como diferentes áreas da medicina podem se encontrar. Uma doença neurológica pode trazer informações importantes sobre a saúde vascular, especialmente quando apresenta aura e está associada a outros fatores de risco.
Por isso, o acompanhamento de quem tem enxaqueca não precisa se limitar ao controle da dor. Identificar o tipo de enxaqueca, reconhecer mudanças no padrão das crises e manter sob controle fatores como pressão arterial, diabetes e tabagismo fazem parte de uma abordagem mais ampla de prevenção.
A enxaqueca com aura não deve ser motivo de alarme, mas também não deve ser ignorada. Conhecer suas características e manter o acompanhamento adequado permite que o paciente trate a doença neurológica e, ao mesmo tempo, cuide dos fatores que influenciam sua saúde cardiovascular.










