Câncer de pele e coração: O que você precisa saber

Fernando Figueira • December 11, 2025

Enquanto o sol do verão brasileiro nos alerta sobre o câncer de pele, uma realidade clínica menos visível exige nossa atenção. Como cirurgião cardiovascular que atua tanto na prática clínica quanto na gestão da saúde pública, acompanho um fenômeno crescente: pacientes que venceram batalhas contra o câncer agora enfrentam uma ameaça cardíaca tardia. Esta não é uma possibilidade teórica, mas uma realidade que vejo em meu consultório e que desafia nossa capacidade de oferecer cuidado verdadeiramente integral.


Quando o tratamento salva e compromete


O avanço da oncologia trouxe um paradoxo. Medicamentos como as antraciclinas, fundamentais no tratamento de câncer de mama, linfomas e leucemias, podem causar danos cardíacos cumulativos. A radioterapia torácica, por sua vez, pode acelerar processos ateroscleróticos. O resultado? Uma cardiomiopatia dilatada silenciosa ou doença coronariana precoce que se manifesta anos após o tratamento oncológico.


A pergunta que ecoa nos consultórios é dura, mas necessária: "Vencer o câncer deveria significar enfrentar uma nova batalha cardíaca anos depois?". Essa interrogação não vem de casos hipotéticos, mas de histórias reais de sobreviventes que, após celebrarem a remissão oncológica, veem sua qualidade de vida ser comprometida por complicações cardiovasculares tardias. Esse cenário expõe uma desconexão temporal no cuidado - enquanto o tratamento do câncer é intensivo e monitorado, suas sequelas cardiovasculares podem permanecer subdiagnosticadas por anos, emergindo apenas quando já estabelecidas.


Cardio-Oncologia: O Complemento necessário ao sucesso oncológico


A Cardio-Oncologia surge não como uma correção de erros, mas como um complemento evolutivo ao sucesso da oncologia moderna. Se hoje celebramos mais sobreviventes ao câncer, faz sentido que também desenvolvamos estratégias para proteger sua saúde cardiovascular em longo prazo. Esta abordagem integrada representa:


  • Um avanço no cuidado preventivo proativo, antecipando-se a possíveis complicações
  • A aplicação da medicina personalizada, reconhecendo que diferentes pacientes têm diferentes riscos
  • A visão holística que todo paciente merece, onde órgãos são protegidos de forma integrada

Esta especialidade não questiona a quimioterapia ou radioterapia, mas reconhece que pacientes que passaram por tratamentos intensivos merecem vigilância cardiovascular adequada como parte de seu cuidado pós-tratamento.


Minha experiência clínica e de gestão me mostra que a medicina contemporânea enfrenta um desafio fascinante: como integrar especialidades que tradicionalmente atuaram de forma independente. A oncologia obteve vitórias históricas contra doenças antes consideradas intratáveis. A cardiologia desenvolveu métodos sofisticados de diagnóstico precoce e intervenção preventiva.


O encontro entre essas especialidades na Cardio-Oncologia não representa um conflito, mas uma colaboração necessária. Trata-se de aliar o poder dos tratamentos oncológicos com a vigilância cardiovascular, criando um continuum de cuidado que honra tanto a vitória imediata contra o câncer quanto a proteção da saúde em longo prazo.


A discussão sobre Cardio-Oncologia transcende questões financeiras para tocar em algo mais fundamental: a qualidade da sobrevivência. Quando falamos em monitoramento cardiovascular para pacientes oncológicos, estamos discutindo como garantir que os anos ganhos sejam vividos com plenitude.


Esta abordagem representa uma evolução natural do cuidado médico: de tratar doenças agudas para gerenciar saúde em longo prazo. Não se trata de substituir ou questionar tratamentos comprovadamente eficazes, mas de complementá-los com uma visão que protege o paciente de forma integral.


Dezembro Laranja e o cuidado integral


O Dezembro Laranja nos convida a pensar além da pele, mas também além de especialidades isoladas. A campanha pode ser um catalisador para reflexões mais amplas sobre como oferecemos cuidado contínuo aos pacientes.

A cardiotoxicidade potencial de alguns tratamentos oncológicos não diminui seu valor, mas sim nos lembra que a medicina de excelência requer atenção a múltiplas dimensões da saúde. O mesmo rigor científico que desenvolveu terapias oncológicas eficazes agora nos permite identificar e mitigar seus efeitos colaterais conhecidos.


Como cirurgião cardiovascular e profissional envolvido na melhoria dos serviços de saúde, vejo a Cardio-Oncologia como um exemplo inspirador de como a medicina pode evoluir. Não se trata de apontar falhas no passado, mas de construir sobre conquistas para criar um cuidado ainda mais completo.


O Dezembro Laranja nos oferece uma oportunidade dupla: conscientizar sobre o câncer de pele e, simultaneamente, refletir sobre como integramos diferentes especialidades para benefício do paciente. A proteção da pele e a proteção do coração não são objetivos concorrentes, mas complementares na busca por saúde integral.



Esta reflexão celebra os avanços da oncologia enquanto defende uma visão integrada do cuidado pós-tratamento. O caminho adiante não é questionar o que foi conquistado, mas construir sobre essas conquistas para oferecer um acompanhamento que honre toda a complexidade da saúde humana em seu curso vitalício.

By Fernando Figueira January 31, 2026
O desejo de perder peso de forma rápida ganhou ainda mais força com a popularização de medicamentos para emagrecimento, dietas extremas e protocolos divulgados nas redes sociais. Embora a redução do peso corporal traga benefícios comprovados para a saúde cardiovascular, a forma como esse emagrecimento ocorre é determinante para que ele seja protetor ou, paradoxalmente, um fator de risco para o coração. A obesidade não é apenas uma questão estética, mas um fator que impõe sobrecarga constante ao sistema cardiovascular. O excesso de tecido adiposo está associado a um aumento da pressão arterial, a alterações no metabolismo da glicose e das gorduras e a um estado inflamatório crônico que favorece a formação e a progressão das placas de aterosclerose. Esse conjunto de alterações cria um ambiente propício ao desenvolvimento de doenças do coração ao longo do tempo. Por isso, a perda de peso costuma ser indicada como parte fundamental da prevenção cardiovascular. No entanto, os benefícios desse processo dependem não apenas do quanto se emagrece, mas principalmente de como esse emagrecimento ocorre. Dietas extremas e instabilidade cardiovascular Protocolos muito restritivos em calorias, jejuns prolongados e uso indiscriminado de medicamentos para emagrecer podem levar a déficits importantes de potássio, magnésio e outros eletrólitos essenciais para a condução elétrica do coração. Essas alterações aumentam o risco de arritmias, síncopes e sensação de palpitação . Além disso, a rápida mobilização de gordura corporal pode estar associada a mudanças no perfil lipídico transitório e a sobrecarga metabólica, especialmente em pessoas com doença cardíaca prévia ou fatores de risco não controlados. Os medicamentos análogos de GLP-1 demonstraram benefícios importantes na redução de peso e no controle do diabetes, além de impacto positivo na diminuição de eventos cardiovasculares em populações específicas. Contudo, o uso desses fármacos fora de indicação, em doses inadequadas ou sem avaliação clínica adequada pode mascarar sintomas, atrasar diagnósticos e criar uma falsa sensação de proteção. O emagrecimento farmacológico deve ser compreendido como parte de uma estratégia terapêutica ampla, que envolve acompanhamento médico, mudança de hábitos e avaliação periódica do risco cardiovascular. Prevenção com responsabilidade Do ponto de vista da saúde pública, a obesidade é reconhecida como um dos principais desafios contemporâneos. O Ministério da Saúde , por meio de políticas voltadas ao controle das doenças crônicas não transmissíveis, enfatiza a importância de estratégias sustentáveis de perda de peso, baseadas em alimentação adequada, atividade física regular e acompanhamento pela atenção primária. Essas diretrizes reforçam que o objetivo não deve ser apenas reduzir números na balança, mas proteger o organismo como um todo, incluindo o coração. A lógica das redes sociais favorece resultados rápidos e transformações visíveis, mas o coração não responde bem a soluções instantâneas. A proteção cardiovascular depende de processos graduais e consistentes, nos quais a perda de peso acontece em conjunto com a melhoria da qualidade da alimentação, do sono e do controle do estresse. Quando o emagrecimento é conduzido de forma segura, ele se torna um aliado poderoso da saúde cardíaca; quando ocorre de maneira desordenada, pode transformar um objetivo saudável em um novo fator de risco. Emagrecer pode salvar o coração, mas apenas quando esse processo respeita os limites do corpo e é orientado por critérios médicos. Em um cenário em que soluções rápidas se multiplicam nas redes sociais, torna-se fundamental reforçar a importância do acompanhamento profissional e das políticas públicas de promoção da saúde. Cuidar do peso é também cuidar do coração, desde que isso seja feito com responsabilidade e visão de longo prazo.
By Fernando Figueira January 28, 2026
O infarto agudo do miocárdio continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. Na maioria das vezes, ele é o resultado final de um processo silencioso e progressivo que ocorre ao longo dos anos dentro das artérias coronárias. Esse processo é chamado de aterosclerose e envolve a deposição de gordura, células inflamatórias e tecido fibroso na parede dos vasos, formando as chamadas placas ateroscleróticas. Com o tempo, essas placas podem crescer e modificar a estrutura da artéria, mas o que determina o risco de um infarto não é apenas o tamanho da obstrução, e sim o tipo de placa que se forma. Por que o infarto acontece? Algumas placas são mais estáveis, com parede mais espessa e menor quantidade de gordura em seu interior. Outras, porém, tornam-se ricas em lipídios e apresentam uma cobertura mais fina e frágil. Essas placas são mais propensas a se romper. Quando isso acontece, o organismo reage formando um coágulo (trombo) sobre a lesão, o que pode bloquear rapidamente a passagem do sangue para o músculo do coração. É esse bloqueio súbito que provoca o infarto. Um aspecto importante é que a placa responsável pelo evento muitas vezes não era a maior nem a que causava mais estreitamento visível nos exames tradicionais, o que explica por que pessoas aparentemente estáveis podem sofrer um infarto de forma inesperada. Limitações dos exames convencionais A angiografia coronariana, exame amplamente utilizado para avaliar as artérias do coração, mostra principalmente o espaço por onde o sangue passa, mas não revela com precisão a composição da placa que está na parede do vaso. Mesmo métodos mais avançados, como o ultrassom intravascular, permitem avaliar o volume da placa e a anatomia da artéria, mas ainda têm limitações para identificar se aquela placa é rica em gordura e, portanto, mais instável. Por isso, cresce a necessidade de tecnologias que não apenas mostrem a obstrução, mas ajudem a reconhecer quais placas têm maior chance de causar um evento. Nesse cenário, tecnologias como o NIRS-IVUS (Near-Infrared Spectroscopy + Intravascular Ultrasound) vêm ganhando destaque por permitir a análise detalhada das placas ateroscleróticas dentro das artérias coronárias. O que é o NIRS-IVUS? O NIRS-IVUS é uma tecnologia que combina dois tipos de análise dentro da artéria coronária. O ultrassom intravascular (IVUS) permite visualizar a estrutura da artéria por dentro, enquanto a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) identifica a presença de gordura no interior da placa. Essa associação possibilita ao médico avaliar não só o tamanho da placa, mas também sua composição, identificando aquelas que são ricas em lipídios e consideradas de maior risco para ruptura. A principal contribuição do NIRS-IVUS está na prevenção. Ao identificar placas mais vulneráveis, o médico pode intensificar medidas de tratamento antes que ocorra um evento grave. Isso inclui ajustes na medicação para controle do colesterol, pressão arterial e inflamação, além de orientar mudanças mais rigorosas no estilo de vida. Em situações específicas, essa informação também pode ajudar a definir a melhor estratégia durante procedimentos como o cateterismo, tornando a abordagem mais precisa e personalizada. Assim, o foco deixa de ser apenas tratar uma obstrução já instalada e passa a ser reduzir o risco de ruptura de placas perigosas. O uso do NIRS-IVUS é mais indicado para pacientes que já apresentam doença coronariana conhecida ou múltiplos fatores de risco, como diabetes, hipertensão, colesterol elevado e histórico familiar de infarto. Ele também pode ser útil em pessoas que já tiveram um evento cardíaco prévio e necessitam de uma avaliação mais detalhada das artérias, ou em casos nos quais as lesões são intermediárias e a decisão terapêutica não é tão clara pelos métodos tradicionais. Para ver um exemplo ilustrado dessa tecnologia e entender como o NIRS-IVUS mostra a composição da placa dentro das artérias, confira este artigo com imagens explicativas sobre como o método identifica placas de alto risco. Evidências e impacto clínico  Estudos clínicos demonstraram que placas ricas em gordura, identificadas por essa tecnologia, estão associadas a maior probabilidade de eventos cardiovasculares futuros. Esses achados reforçam a importância de reconhecer precocemente as placas mais perigosas e agir antes que elas se rompam. Dessa forma, o NIRS-IVUS passa a integrar um conjunto de ferramentas que ampliam a capacidade de previsão e prevenção do infarto. O infarto do miocárdio não surge de forma repentina, mas é consequência de alterações progressivas nas artérias do coração. A possibilidade de identificar placas instáveis antes que elas causem um evento representa um avanço importante na cardiologia moderna. O NIRS-IVUS contribui para essa mudança ao permitir uma análise mais detalhada da composição das placas, ajudando a direcionar estratégias preventivas e tratamentos mais individualizados. Com isso, a prática médica caminha para um modelo cada vez mais voltado à antecipação do risco e à proteção do paciente.
By Fernando Figueira January 13, 2026
A prática regular de atividade física é uma das principais recomendações para a prevenção e o tratamento das doenças cardiovasculares. Exercitar-se melhora a circulação, contribui para o controle da pressão arterial, do colesterol e do diabetes, além de impactar positivamente a saúde mental e a qualidade de vida. Por isso, o exercício não deve ser visto como um risco em si, mas como uma ferramenta fundamental de cuidado com o coração. Entre pacientes com doenças cardíacas, no entanto, é comum surgir a dúvida sobre até onde é seguro ir, especialmente quando o assunto envolve exercícios de maior intensidade. A resposta passa, necessariamente, pela individualização e pelo acompanhamento profissional. Quem tem doença cardíaca pode se beneficiar do exercício Diversas evidências científicas mostram que pessoas com doenças do coração se beneficiam da prática regular de atividade física. Programas de reabilitação cardíaca, amplamente recomendados por sociedades médicas, demonstram melhora da capacidade funcional, redução de sintomas, menor risco de novos eventos cardiovasculares e aumento da sobrevida. Mesmo atividades de intensidade leve a moderada já promove ganhos importantes. Em muitos casos, o exercício faz parte do próprio tratamento da doença cardíaca, sendo tão relevante quanto o uso correto de medicamentos e o controle dos fatores de risco. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a atividade física regular é uma das principais estratégias de prevenção secundária em cardiologia. E os exercícios de alta intensidade? Os exercícios de alta intensidade, como treinos intervalados mais intensos, corridas, ciclismo em ritmo elevado ou atividades de força com maior carga, exigem mais do sistema cardiovascular. Isso não significa que eles sejam proibidos para todos os cardiopatas, mas sim que não são indicados da mesma forma para todas as pessoas. O tipo de doença cardíaca, o grau de comprometimento do coração, a presença de sintomas, o uso de medicamentos e o nível de condicionamento físico influenciam diretamente nessa decisão. Há pacientes clinicamente estáveis que podem, sim, realizar exercícios mais intensos, desde que com liberação médica e acompanhamento adequado. Em outros casos, a intensidade precisa ser ajustada ou limitada. A importância da avaliação e do acompanhamento profissional Antes de iniciar ou intensificar qualquer programa de exercícios, a avaliação médica é fundamental. Consultas, exames cardiológicos e, em muitos casos, testes de esforço ajudam a entender como o coração responde à atividade física e quais são os limites seguros para cada paciente. O acompanhamento não deve acontecer apenas no início. O exercício é um processo contínuo, e a resposta do organismo pode mudar ao longo do tempo. Ajustar intensidade, frequência e tipo de atividade faz parte de um cuidado responsável. A atuação integrada de médicos, educadores físicos e fisioterapeutas é essencial para garantir segurança e bons resultados. O Ministério da Saúde reforça que a prática de atividade física deve ser estimulada, inclusive para pessoas com doenças crônicas, desde que com orientação adequada. Além do acompanhamento profissional, é fundamental que o próprio paciente esteja atento aos sinais do corpo. Exercício não deve gerar medo, mas também não deve ser feito ignorando sintomas. Reconhecer limites é parte do processo de cuidar do coração. Quando interromper o exercício e procurar avaliação médica Interrompa a atividade física e procure um profissional de saúde se surgirem: Dor ou aperto no peito Falta de ar fora do habitual Tontura ou sensação de desmaio Palpitações intensas ou irregulares Cansaço extremo desproporcional ao esforço O exercício físico não é inimigo do coração. Pelo contrário, ele é uma das principais ferramentas para promover saúde cardiovascular e qualidade de vida. Para pessoas com doenças cardíacas, manter-se ativo é parte do tratamento, desde que essa prática seja feita com responsabilidade, orientação e acompanhamento profissional.  O equilíbrio entre movimento e cuidado especializado é o caminho mais seguro para que o exercício cumpra seu papel: proteger o coração e promover saúde ao longo da vida.
By Fernando Figueira January 10, 2026
As ondas de calor têm se tornado cada vez mais frequentes e intensas no Brasil, reflexo direto das mudanças climáticas e da urbanização acelerada. Esse cenário deixou de ser apenas um problema ambiental e passou a representar um importante desafio para a saúde pública, com impacto direto sobre o sistema cardiovascular. O coração, responsável por garantir a circulação adequada de sangue e oxigênio para todo o organismo, é especialmente sensível às altas temperaturas. De acordo com o Ministério da Saúde , eventos climáticos extremos, como o calor excessivo, estão associados ao aumento de agravos à saúde, especialmente entre idosos, pessoas com doenças crônicas e populações socialmente vulneráveis. O impacto do calor em quem já tem doença do coração Quando a temperatura ambiente se eleva, o corpo ativa mecanismos para manter o equilíbrio térmico. O principal deles é a vasodilatação periférica, que aumenta o fluxo sanguíneo para a pele e facilita a perda de calor. Para sustentar a pressão arterial e a perfusão dos órgãos vitais, o coração precisa aumentar sua frequência e intensidade de contração. Esse aumento da sobrecarga cardíaca pode não trazer consequências relevantes para indivíduos saudáveis. No entanto, em pessoas com doenças cardiovasculares, o esforço adicional imposto pelo calor pode desencadear descompensações clínicas importantes, exigindo maior atenção e acompanhamento médico. Pacientes com insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana, hipertensão ou histórico de infarto constituem um grupo de maior risco durante períodos de calor intenso. Na insuficiência cardíaca, por exemplo, o coração já apresenta dificuldade em atender às demandas do organismo. O estresse térmico pode levar à piora dos sintomas, como falta de ar, inchaço e cansaço excessivo, aumentando o risco de internações. No caso da doença arterial coronariana, o aumento da frequência cardíaca eleva o consumo de oxigênio pelo músculo cardíaco, enquanto a queda da pressão arterial pode comprometer a perfusão das artérias coronárias. Esse desequilíbrio favorece episódios de isquemia e aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio. Pressão arterial, arritmias e calor extremo As altas temperaturas também influenciam diretamente o controle da pressão arterial. A vasodilatação pode provocar quedas abruptas da pressão, causando tonturas, fraqueza e até desmaios, principalmente ao se levantar rapidamente. Em contrapartida, o estresse térmico pode desencadear alterações no sistema nervoso autônomo, favorecendo o surgimento de arritmias cardíacas. A Sociedade Brasileira de Cardiologia alerta que episódios de calor extremo estão associados ao aumento de eventos cardiovasculares agudos, reforçando a necessidade de atenção redobrada durante esses períodos. Outro fator crítico associado ao calor extremo é a desidratação. A perda intensa de líquidos e eletrólitos pelo suor, quando não compensada adequadamente, reduz o volume sanguíneo e aumenta a viscosidade do sangue. Esse processo dificulta a circulação e eleva o risco de formação de trombos, especialmente em pessoas com fatores de risco cardiovasculares. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) , a desidratação em períodos de calor intenso pode agravar doenças cardiovasculares e interferir no efeito de medicamentos de uso contínuo, como diuréticos e anti-hipertensivos. Evidências científicas e dados no Brasil Estudos epidemiológicos mostram que há aumento de internações e mortalidade cardiovascular durante ondas de calor . O próprio Ministério da Saúde reconhece que eventos climáticos extremos impactam diretamente o sistema de saúde, exigindo estratégias de prevenção, vigilância e educação em saúde. Esses efeitos tendem a ser mais intensos em regiões urbanas densamente povoadas, onde o fenômeno das “ilhas de calor” agrava ainda mais a exposição da população às altas temperaturas. Diante desse cenário, algumas medidas simples são fundamentais para reduzir os riscos cardiovasculares. Manter uma hidratação adequada ao longo do dia, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes, adaptar a prática de atividades físicas e reconhecer sinais de alerta, como falta de ar, palpitações e tonturas, são atitudes essenciais. Pacientes com doenças cardiovasculares devem manter acompanhamento médico regular e jamais suspender ou alterar o uso de medicamentos sem orientação profissional. Um novo olhar para a cardiologia em tempos de mudança climática O aumento das temperaturas globais impõe um novo desafio à cardiologia contemporânea. Cuidar do coração hoje exige não apenas o controle dos fatores de risco tradicionais, mas também a compreensão de como o ambiente influencia diretamente a saúde cardiovascular. Reconhecer o calor extremo como um fator de risco é essencial para fortalecer estratégias de prevenção, educação em saúde e promoção da qualidade de vida. Acompanhe minhas redes sociais e fique por dentro de temas atuais que impactam diretamente a saúde do seu coração.
By Fernando Figueira December 31, 2025
Você já deve ter ouvido falar que a inteligência artificial (IA) está “revolucionando a medicina”. Mas o que isso realmente significa quando falamos de doenças do coração ? O coração é um órgão complexo, e cuidar bem dele envolve combinar sinais clínicos, exames e decisões rápidas. Hoje, a IA está passando de promessa para prática, ajudando médicos a interpretar dados com mais qualidade, detectar riscos mais cedo e personalizar o cuidado de pacientes de forma que nunca foi possível antes. O que é cardiologia de precisão com IA Quando pensamos em cardiologia de precisão , estamos falando de uma abordagem que vai além dos métodos tradicionais de avaliação. Em vez de usar apenas escores de risco clássicos, agora algoritmos inteligentes conseguem interpretar informações de diferentes fontes, como exames, sinais clínicos e histórico do paciente, tudo ao mesmo tempo, encontrando padrões que muitas vezes passam despercebidos no olhar humano. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) já ressalta que a inteligência artificial tem impacto direto na prática cardíaca, seja no suporte à interpretação de exames de imagem ou na análise avançada de dados que podem antecipar sinais de risco antes mesmo de sintomas aparecerem. IA ajudando a prever eventos cardíacos com mais precisão Um dos usos mais promissores da IA está na predição de eventos cardiovasculares , como infarto ou insuficiência cardíaca. Isso acontece porque os modelos de IA conseguem analisar grandes conjuntos de dados, reconhecer padrões sutis e fornecer estimativas de risco muito mais personalizadas do que métodos tradicionais. Estudos brasileiros também mostram que a IA pode otimizar a interpretação de exames, como eletrocardiogramas, permitindo que resultados sejam interpretados com precisão e velocidade superiores às análises convencionais. Esse tipo de tecnologia tem potencial para identificar pacientes em risco antes mesmo de sinais claros aparecerem no consultório, permitindo intervenções preventivas mais eficazes. Isso não quer dizer que a máquina “diagnostica sozinho”, mas sim que o médico recebe uma ferramenta poderosa para apoiar decisões clínicas, com mais contexto e dados integrados. Como a IA já está sendo aplicada na prática A análise de dados e o aprendizado de máquina já estão sendo estudados em diversos cenários da cardiologia. Por exemplo: Interpretação avançada de exames : algoritmos treinados com grandes bases conseguem identificar padrões em ECGs que podem antecipar diagnósticos, como disfunção ventricular, com alta sensibilidade e especificidade. Predição de eventos futuros : modelos preditivos ajudam a estimar riscos de arritmias ou desfechos complexos, oferecendo suporte ao planejamento clínico. Pesquisa e educação médica : o periódico brasileiro International Journal of Cardiovascular Sciences está organizando uma coleção temática internacional sobre IA na saúde cardiovascular, reunindo evidências científicas e perspectivas que apontam para um futuro com mais integração entre ciência de dados e prática médica cotidiana.  Além disso, eventos nacionais como o XXIII Congresso de Cardiologia de Brasília trazem debates atualizados sobre a presença da IA na rotina cardiológica, reforçando que essa tecnologia não está distante da nossa realidade médica brasileira. Desafios que ainda precisamos enfrentar juntos Apesar de todo o potencial, é importante lembrar que a IA não é uma solução mágica. Ela depende da qualidade dos dados com que é treinada, da validação em populações diversas e de uma interpretação crítica pelo médico responsável. A ssim como em qualquer outra tecnologia, existem desafios relacionados à privacidade, representatividade dos dados e integração efetiva na prática clínica diária, temas que grandes sociedades médicas e pesquisadores brasileiros estão começando a debater com profundidade. Seja você um paciente ou um profissional de saúde, é essencial entender que a IA está se tornando uma parceira na cardiologia, não um substituto para a experiência humana. Ela amplia a capacidade diagnóstica, acelera análises complexas e traz insights que podem fazer diferença quando cada minuto conta. E embora ainda estejamos no início dessa jornada, os exemplos práticos e pesquisas nacionais mostram que o futuro da cardiologia já começa a acontecer hoje, aqui no Brasil.
By Fernando Figueira December 28, 2025
Quando confrontamos a decisão de substituir uma válvula mitral doente, a técnica cirúrgica que escolhemos pode ter impacto real sobre a função do ventrículo esquerdo e, consequentemente, sobre os desfechos dos nossos pacientes. Uma das grandes evoluções na técnica de troca valvar mitral foi o conceito de preservar o aparelho subvalvar, ou seja, manter as cordas tendíneas e músculos papilares conectados ao ventrículo mesmo após a substituição da válvula. Essa preservação não é apenas um detalhe técnico: ela representa uma abordagem pensada para proteger a geometria e a função do ventrículo esquerdo, um aspecto essencial para a recuperação e longevidade do paciente após cirurgia valvar. Entendendo o papel do aparelho subvalvar Anatomicamente, o aparelho subvalvar, composto pelas cordas tendíneas e músculos papilares, faz parte da estrutura que mantém a integridade mecânica do ventrículo esquerdo. Ele não age apenas como um “sistema de amarras” da válvula, mas é fundamental para a continuidade ânulo-papilar, que ajuda a distribuir forças durante a sístole e a manter a geometria ventricular adequada. A remoção completa desse aparato tem sido associada, historicamente, a alterações desfavoráveis na cinética e no remodelamento ventricular após a cirurgia, especialmente em pacientes com disfunção ventricular pré-existente. Por isso, já nas primeiras décadas da cirurgia cardíaca moderna, técnicas foram desenvolvidas para manter essas estruturas sempre que possível PMC . O que os estudos mostram A literatura acumulada ao longo de décadas sugere que a preservação subvalvar durante a troca valvar mitral pode trazer vantagens reais. Uma meta-análise que incluiu mais de 3.800 pacientes comparou resultados de trocas valvares com e sem preservação do aparelho subvalvar e encontrou que a preservação está associada a menor mortalidade de curto e médio prazo e menor incidência de síndrome de baixo débito pós-operatório, dois desfechos que impactam diretamente a recuperação inicial do paciente após cirurgia cardíaca. Além disso, embora a função ventricular esquerda nem sempre seja dramaticamente diferente logo no pós-operatório imediato, a tendência de melhor manutenção da função a longo prazo com preservação tem sido observada em variados estudos, reforçando a importância da continuidade ânulo-papilar para a eficiência hemodinâmica do coração PubMed . Outro estudo clássico, ainda citado em centros de referência, mostrou que a preservação completa do aparelho subvalvar está associada a sobrevida maior ao longo de 10 anos, comparado com a técnica tradicional sem preservação, sugerindo não apenas benefício imediato, mas também ganho em qualidade de vida ajustada pelo tempo de sobrevida quando essa técnica é empregada. Quando a Preservação é mais indicada Embora a preservação do aparelho subvalvar seja desejável, não é sempre tecnicamente possível. Ela depende de fatores como: Estado anatomofuncional da valva (lesão degenerativa com cordas flexíveis vs. calcificação extensiva) Presença de endocardite ou processo inflamatório que destruiu as cordas Anatomia ventricular complicada por remodelamento severo Mesmo assim, sempre que as condições cirúrgicas permitem, a preservação deve ser considerada, especialmente em pacientes com função ventricular comprometida ou risco elevado de baixo débito no pós-operatório. Técnicas e Considerações Operatórias A preservação subvalvar pode ser total ou parcial. A preservação total mantém todos os componentes do aparelho, enquanto a preservação parcial mantém apenas parte das cordas, geralmente do folheto posterior, quando o folheto anterior está muito doente ou calcificado. Independente da técnica, ela exige: Planejamento cuidadoso durante a cirurgia Estabilização adequada das cordas para não atrapalhar o funcionamento da prótese Reconstrução anatômica que respeite o eixo do ventrículo esquerdo Quando bem executada, a preservação não interfere no funcionamento da prótese nem aumenta complicações como obstrução do trato de saída ventricular ou disfunção protética, desde que a técnica seja feita com rigor e em centros com experiência comprovada. A preservação do aparelho subvalvar durante a troca valvar mitral não deve ser vista apenas como um refinamento técnico, mas como uma escolha cirúrgica fundamentada em evidências sólidas e em uma compreensão mais profunda da fisiologia cardíaca. Ao respeitar a continuidade ânulo-papilar e a geometria ventricular, essa abordagem contribui para a proteção da função do ventrículo esquerdo e para melhores desfechos clínicos ao longo do tempo. A cirurgia valvar mitral vai além da simples troca de uma válvula doente e exige decisões que impactam diretamente a recuperação, a qualidade de vida e a sobrevida do paciente. Nesse contexto, a técnica empregada deixa de ser apenas um detalhe operatório e passa a ser parte central da estratégia terapêutica. Incorporar, sempre que possível, a preservação do aparelho subvalvar nas trocas valvares mitrais reflete um compromisso com uma cirurgia mais fisiológica, individualizada e orientada para resultados duradouros. É essa atenção aos detalhes, sustentada pela ciência e pela experiência, que faz, de fato, a diferença na prática da cirurgia cardiovascular contemporânea. 
By Fernando Figueira December 18, 2025
Nos primeiros cinco meses de 2025, Pernambuco registrou aproximadamente 3,5 mil mortes por doenças cardiovasculares, segundo levantamento divulgado pela imprensa local. Uma das matérias que trouxe esse dado foi publicada pelo Jornal do Commercio, reforçando a dimensão do problema no estado. Pernambuco registra 3,5 mil mortes por doenças cardíacas em cinco meses — JC Online https://jc.uol.com.br/colunas/saude-e-bem-estar/2025/09/08/pernambuco-registra-35-mil-mortes-por-doencas-cardiacas-em-apenas-cinco-meses-de-2025.html À primeira vista, pode parecer apenas mais um número epidemiológico. Mas ele revela um cenário que merece ser analisado com cuidado: estamos enfrentando uma doença altamente prevalente, cada vez mais precoce e ainda subestimada. As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Contudo, quando um estado como Pernambuco apresenta números tão expressivos em tão pouco tempo, isso evidencia uma combinação de fatores preocupantes: aumento do risco em idades mais jovens, mudanças no estilo de vida, maior prevalência de obesidade, sedentarismo, hipertensão não controlada e redução da procura por serviços de saúde após a pandemia. Eventos cardíacos cada vez mais precoces Mais grave do que o número total de mortes é o fato de que parte significativa desses óbitos ocorre em faixas etárias mais jovens, frequentemente a partir dos 40 anos. Esse fenômeno já é observado em outros países, mas agora começa a aparecer com intensidade crescente no Brasil. Estresse crônico, jornadas de trabalho extenuantes, alimentação ultraprocessada, tabagismo, uso de estimulantes e anabolizantes, todos esses fatores estão contribuindo para aumentar o risco cardiovascular décadas antes do esperado. Como cirurgião cardiovascular, vejo cada vez mais pacientes chegando ao hospital em situação crítica, frequentemente sem histórico prévio, mas carregando fatores de risco silenciosos como hipertensão desconhecida, dislipidemia não tratada, resistência insulínica, obesidade abdominal e inflamação crônica de baixo grau. O que explica esse aumento? Diversas possibilidades podem ser consideradas: Diagnóstico tardio de condições controláveis, especialmente hipertensão e diabetes. Interrupção do cuidado durante a pandemia, que afastou muitos pacientes da atenção primária. Aumento de hábitos nocivos, como sedentarismo e consumo alimentar excessivo. Crescimento da obesidade, especialmente entre adultos jovens. Baixa percepção de risco entre mulheres, que muitas vezes só se veem como “cardiopatas em potencial” após a menopausa. Desigualdades sociais que impactam o acesso à saúde, embora este texto não se aprofunde nelas, funcionam como pano de fundo. O ponto mais importante é: a maior parte dessas mortes poderia ter sido evitada com diagnóstico precoce, controle adequado dos fatores de risco e acompanhamento regular. Para contextualizar a gravidade nacional do problema, vale mencionar o relatório científico Cardiovascular Statistics – Brazil, da SBC/ABC Cardiology, que detalha tendências recentes da mortalidade cardiovascular no Brasil: Relatório Cardiovascular Statistics – Brazil https://abccardiol.org/en/article/cardiovascular-statistics-brazil-2023/ O papel da atenção primária, urgência e redes de cuidado Quando dados como esses surgem, eles funcionam como um chamado para fortalecer a rede de cuidado. Como profissional que também atua na gestão do Ministério da Saúde, vejo com clareza que o enfrentamento da mortalidade cardiovascular exige: Atenção primária estruturada, capaz de identificar precocemente hipertensão, diabetes, dislipidemia e risco cardiovascular global. Rastreamento ativo em populações prioritárias, incluindo adultos de 30 a 55 anos, especialmente com histórico familiar. Linhas de cuidado integradas, permitindo que pacientes com suspeita de síndrome coronariana tenham acesso rápido ao diagnóstico e à terapia. Educação em saúde contínua, com campanhas sobre sintomas de infarto, AVC e insuficiência cardíaca. Expansão do cuidado domiciliar e pós-alta, reduzindo reinternações e complicações. Reverter esse cenário é possível  A boa notícia é que países que investiram em prevenção, triagem sistemática e educação em saúde reduziram drasticamente a mortalidade por doenças cardíacas. O Brasil pode seguir o mesmo caminho. Para isso, precisamos alinhar conhecimento científico, ações clínicas e políticas públicas, integrando gestão, ciência e prática assistencial. O dado de Pernambuco não deve gerar pânico; deve provocar movimento. É um convite para refletirmos sobre hábitos, fortalecermos o cuidado e transformarmos a forma como enxergamos a saúde cardiovascular. Para acompanhar reflexões, conteúdos sobre saúde cardiovascular, prevenção, ciência, ensino e temas relacionados à gestão e políticas públicas em saúde, me siga nas redes sociais: @drfernandofigueira.
By Fernando Figueira November 25, 2025
Há pouco mais de uma década, a sigla ECMO soava como algo distante para a maioria dos profissionais de saúde e, principalmente, para os pacientes. Vista quase como uma medida extrema, associada a casos raros e de altíssimo risco, a oxigenação por membrana extracorpórea era uma terapia restrita e pouco compreendida. Porém, nos últimos anos, especialmente após a pandemia, houve uma transformação profunda na forma como o ECMO é utilizado, estudado, indicado e estruturado no Brasil. O que antes era exceção, hoje se consolida como uma ferramenta essencial no arsenal de suporte avançado para pacientes críticos em choque cardiogênico ou insuficiência respiratória grave. Como o ECMO funciona e por que salva vidas O ECMO funciona como um coração-pulmão artificial temporário. Ele retira o sangue do paciente, oxigena, remove gás carbônico e devolve ao organismo, permitindo que o coração e/ou os pulmões descansem enquanto se recuperam ou enquanto se aguarda uma terapia definitiva, como uma cirurgia ou um transplante. Esse “tempo extra” oferecido pela tecnologia é, muitas vezes, o que separa a vida da morte. Em condições como infarto extenso com falência ventricular, miocardites agudas, choque cardiogênico refratário ou complicações pós-operatórias na cirurgia cardiovascular, o ECMO se tornou um recurso capaz de modificar drasticamente o prognóstico. O que impulsionou essa evolução no Brasil foi, em grande parte, a necessidade. A pandemia evidenciou a urgência de terapias de suporte circulatório e respiratório avançado, levando diversos hospitais a criarem fluxos, treinarem equipes e investirem em tecnologia. Perfusionistas passaram a ter papel central, intensivistas e cirurgiões cardiovasculares se integraram de forma mais estruturada, e centros especializados começaram a se multiplicar. Hoje, o Brasil vive um momento de consolidação: há mais unidades capacitadas, protocolos atualizados e uma visão mais clara das indicações e limitações da terapia. Os resultados estão cada vez mais consistentes. Quando implantado no momento adequado e conduzido por equipes experientes, o ECMO aumenta significativamente a chance de sobrevivência, reduz complicações e melhora a preservação de órgãos. Para pacientes que aguardam transplante, ele não é apenas uma ponte, é a única maneira de permanecer estável até que o órgão chegue. Em casos de insuficiência respiratória grave, oferece recuperação que muitas vezes seria impossível com ventilação mecânica convencional. Naturalmente, desafios importantes ainda existem. Tornar o ECMO mais acessível ao SUS, ampliar centros de referência, padronizar critérios de indicação e investir continuamente em capacitação são passos essenciais para os próximos anos. A terapia depende de equipes completas e treinadas; não basta o equipamento, mas sim a integração entre perfusionistas, cirurgiões, intensivistas, enfermagem e fisioterapeutas. Um futuro impulsionado por inovação O futuro, porém, já dá sinais promissores. O ECMO móvel , que permite transportar pacientes graves já conectados à máquina, começa a aparecer em grandes centros. A ressuscitação cardiopulmonar com ECMO (E-CPR), que combina as manobras de reanimação com suporte extracorpóreo imediato, vem mostrando resultados expressivos no exterior e deve ganhar espaço no Brasil. A canulação guiada por imagem e o uso de inteligência artificial para prever complicações também despontam como avanços que transformarão o cuidado crítico. O ECMO deixou de ser uma terapia de exceção para se tornar um símbolo de esperança e tecnologia aplicada ao cuidado humano. É ciência, precisão e, acima de tudo, tempo, o recurso mais valioso para quem está entre a vida e a morte. E, no Brasil, essa evolução está apenas começando. NÃO DEIXE DE ACOMPANHAR O BLOG E TAMBÉM AS REDES SOCIAIS DE DR. FERNANDO.
By Fernando Figueira November 15, 2025
Quando novembro chega, as campanhas de saúde voltadas ao homem se concentram quase exclusivamente na prevenção do câncer de próstata. Embora essa seja uma pauta fundamental, ela acaba criando a sensação de que a saúde masculina se resume a esse único cuidado. Esse recorte limitado deixa de lado um aspecto muito mais urgente e extremamente relevante: o coração. As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte entre homens no Brasil e no mundo , superando de longe todas as outras condições combinadas e o mais alarmante é que grande parte desses eventos poderia ser evitada com prevenção adequada e acompanhamento regular. Por que os homens demoram a buscar ajuda Existe um comportamento repetitivo e culturalmente construído entre os homens: procurar ajuda apenas quando algo já está avançado. Essa negligência não costuma ser intencional; ela nasce da ideia equivocada de invulnerabilidade, da rotina corrida, da falta de tempo ou da simples dificuldade em aceitar fragilidades. Como consequência, muitos só chegam ao cardiologista após um susto considerável, um infarto, um episódio de arritmia, um desmaio ou uma dor torácica persistente. Em muitos casos, o primeiro encontro com a cardiologia é também o mais crítico. O grande problema é que o coração é um órgão silencioso. Ele não avisa quando a pressão está alta, quando o colesterol está se acumulando nas artérias, quando a aterosclerose avança sem sintomas ou quando pequenos episódios de arritmia vão aparecendo de forma intermitente. Um homem aparentemente saudável, ativo fisicamente e com boa forma física pode carregar fatores de risco importantes sem perceber. A estética, frequentemente, mascara o risco real. Exames essenciais após os 40 anos Passados os 40 anos, alguns exames tornam-se cruciais para quem deseja viver mais e melhor. O mapa lipídico completo identifica a dislipidemia, uma das maiores responsáveis pelo desenvolvimento de doença coronariana. O ecocardiograma é um exame simples, não invasivo, que permite visualizar a função cardíaca, avaliar válvulas e identificar hipertrofias causadas por anos de pressão alta. A ergoespirometria, ou, ao menos, o teste ergométrico, é essencial para quem treina, corre, pedala ou pretende iniciar atividades mais intensas. E, talvez o mais revolucionário dos últimos anos, o escore de cálcio coronariano vem se mostrando uma ferramenta extremamente precisa para prever o risco de infarto, oferecendo uma fotografia real do estado das artérias. Além dos exames, há fatores menos discutidos, mas igualmente importantes. A apneia do sono , por exemplo, é um dos grandes vilões cardiovasculares modernos, aumentando o risco de arritmia, hipertensão resistente e insuficiência cardíaca. O estresse contínuo, por sua vez, gera inflamação crônica e desregula profundamente o corpo. O consumo de álcool, muitas vezes normalizado, e o uso crescente de cigarros eletrônicos completam esse cenário de risco. Prevenção cardiovascular na prática A boa notícia é que grande parte das doenças cardiovasculares pode ser prevenida. Alimentação equilibrada, atividade física regular, manejo do estresse, sono adequado e abandono do tabaco são medidas simples, eficazes e acessíveis. Nada disso exige um grande sacrifício, o difícil mesmo é lidar com as consequências da negligência. Por isso, aproveitar o Novembro Azul para ampliar o debate é fundamental. Cuidar da próstata é importante, mas cuidar do coração é indispensável. O homem moderno, preocupado com estética, produtividade e performance, precisa entender que nada disso importa sem a base que sustenta tudo: um coração saudável. A verdadeira longevidade começa pela prevenção, e prevenção começa por olhar para si antes que o corpo peça socorro. Novembro é só o lembrete; o compromisso real deve durar o ano inteiro.
By Fernando Figueira October 30, 2025
Quando foi a última vez que você pensou na importância das vacinas? Talvez a resposta venha associada a crianças pequenas, à gripe ou a campanhas anuais de vacinação. Mas a verdade é que vacinas são parte essencial da saúde de todas as idades , incluindo adolescentes e adultos, e têm impactos diretos e indiretos sobre o nosso coração. Já parou para refletir sobre isso? Por que vacinas importam para o corpo todo, inclusive para o coraçã? O objetivo das vacinas é simples: preparar o sistema imunológico para reconhecer e combater agentes infecciosos, evitando doenças graves. Mas o que muitos não sabem é que infecções graves podem afetar diretamente o coração. Inflamações sistêmicas, febre alta e até tromboses podem surgir em infecções não prevenidas, aumentando o risco de complicações cardiovasculares, especialmente em pessoas com predisposição genética ou histórico de hipertensão, obesidade ou diabetes. Para mais informações sobre como infecções virais podem afetar o coração, consulte o artigo sobre Cardiomiopatia viral . E os questionamentos que aparecem na internet? Quem nunca viu alguém comentando nas redes sociais sobre vacinas “causando problemas no coração”? Essas histórias chamam atenção, especialmente porque envolvem jovens aparentemente saudáveis. Mas será que essas informações refletem a realidade científica? Vamos aos fatos: pesquisas internacionais e nacionais confirmam que efeitos adversos graves em jovens vacinados são extremamente raros. No caso da COVID-19, por exemplo, houve relatos de miocardite em homens jovens, mas: A incidência foi de aproximadamente 1 a 5 casos a cada 100 mil vacinados, segundo o CDC . A maioria dos casos foi leve e tratável, com recuperação completa em poucos dias. Infecções naturais pelo vírus apresentam risco muito maior de inflamação cardíaca e complicações graves do que a própria vacinação. Portanto, questionar é saudável, a ciência valoriza a dúvida e busca respostas precisas. Mas precisamos diferenciar questionamentos legítimos de informações distorcidas que circulam nas redes sociais. Como a ciência protege a população O Brasil possui uma tradição consolidada em imunização, com o SUS garantindo vacinas para milhões de brasileiros, desde recém-nascidos até adultos. Cada vacina aprovada passa por testes rigorosos de segurança e eficácia, conduzidos por cientistas em laboratórios nacionais e internacionais, antes de ser disponibilizada à população. Quando surgem efeitos adversos, eles são monitorados e investigados por autoridades de saúde, como o Ministério da Saúde e a Anvisa, que publicam dados transparentes sobre frequência e gravidade. Esse processo garante que benefícios superem amplamente qualquer risco, incluindo riscos cardiovasculares. Além disso, a ciência nos ensina que não se pode tirar conclusões precipitadas de casos isolados. Por exemplo, quando uma pessoa jovem apresenta inflamação do coração após a vacina, os especialistas analisam: há fatores pré-existentes? É uma coincidência temporal? Quais os números em larga escala? Só com dados consistentes podemos afirmar causalidade e até agora, os números reforçam que vacinas são seguras para o coração da grande maioria das pessoas. Vacinas, prevenção e saúde cardiovascular Você sabia que proteger-se de infecções também ajuda a manter o coração saudável? Aqui está o porquê: Evita inflamação sistêmica: Infecções graves aumentam a inflamação no corpo, que pode afetar o coração. Reduz internações e complicações: Pessoas vacinadas têm menor risco de desenvolver complicações que exigem cuidados intensivos, como discutido em nosso artigo sobre transplante cardíaco no SUS. Protege grupos vulneráveis: Ao se vacinar, você também protege pessoas próximas, como idosos ou pessoas com doenças cardíacas crônicas. No fim das contas, vacinar-se é um ato de autocuidado e solidariedade, e envolve informação confiável, diálogo com profissionais de saúde e acompanhamento regular, especialmente para quem tem fatores de risco cardíaco. Como se informar de forma segura Em meio a tantas mensagens online, como saber o que é verdadeiro? Algumas dicas simples: Priorize fontes confiáveis: Ministério da Saúde, Anvisa, Sociedade Brasileira de Cardiologia, OMS , CDC . Cuidado com postagens virais: Histórias isoladas ou vídeos sensacionalistas raramente refletem a realidade. Converse com seu médico: Especialistas podem contextualizar riscos individuais e esclarecer dúvidas sobre vacinação e saúde cardíaca. Quando olhamos para a ciência e os dados, fica claro que vacinas protegem o coração tanto quanto previnem doenças infecciosas. Questionar e buscar informações é natural, mas confiar em evidências robustas é fundamental para não se deixar levar por fake news. O cuidado com o coração é contínuo, e incluir vacinas nesse cuidado é um passo simples, seguro e comprovadamente eficaz. Afinal, prevenir é sempre melhor do que remediar e a ciência está do nosso lado para mostrar que proteger o coração e a saúde é possível, sem exageros ou alarmismos.