Detecção precoce do infarto: Conheça a tecnologia que identifica placas de gordura nas artérias
O infarto agudo do miocárdio continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. Na maioria das vezes, ele é o resultado final de um processo silencioso e progressivo que ocorre ao longo dos anos dentro das artérias coronárias. Esse processo é chamado de aterosclerose e envolve a deposição de gordura, células inflamatórias e tecido fibroso na parede dos vasos, formando as chamadas placas ateroscleróticas. Com o tempo, essas placas podem crescer e modificar a estrutura da artéria, mas o que determina o risco de um infarto não é apenas o tamanho da obstrução, e sim o tipo de placa que se forma.
Por que o infarto acontece?
Algumas placas são mais estáveis, com parede mais espessa e menor quantidade de gordura em seu interior. Outras, porém, tornam-se ricas em lipídios e apresentam uma cobertura mais fina e frágil. Essas placas são mais propensas a se romper. Quando isso acontece, o organismo reage formando um coágulo (trombo) sobre a lesão, o que pode bloquear rapidamente a passagem do sangue para o músculo do coração. É esse bloqueio súbito que provoca o infarto. Um aspecto importante é que a placa responsável pelo evento muitas vezes não era a maior nem a que causava mais estreitamento visível nos exames tradicionais, o que explica por que pessoas aparentemente estáveis podem sofrer um infarto de forma inesperada.
Limitações dos exames convencionais
A angiografia coronariana, exame amplamente utilizado para avaliar as artérias do coração, mostra principalmente o espaço por onde o sangue passa, mas não revela com precisão a composição da placa que está na parede do vaso. Mesmo métodos mais avançados, como o ultrassom intravascular, permitem avaliar o volume da placa e a anatomia da artéria, mas ainda têm limitações para identificar se aquela placa é rica em gordura e, portanto, mais instável. Por isso, cresce a necessidade de tecnologias que não apenas mostrem a obstrução, mas ajudem a reconhecer quais placas têm maior chance de causar um evento.
Nesse cenário, tecnologias como o NIRS-IVUS (Near-Infrared Spectroscopy + Intravascular Ultrasound) vêm ganhando destaque por permitir a análise detalhada das placas ateroscleróticas dentro das artérias coronárias.
O que é o NIRS-IVUS?
O NIRS-IVUS é uma tecnologia que combina dois tipos de análise dentro da artéria coronária. O ultrassom intravascular (IVUS) permite visualizar a estrutura da artéria por dentro, enquanto a espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) identifica a presença de gordura no interior da placa. Essa associação possibilita ao médico avaliar não só o tamanho da placa, mas também sua composição, identificando aquelas que são ricas em lipídios e consideradas de maior risco para ruptura.
A principal contribuição do NIRS-IVUS está na prevenção. Ao identificar placas mais vulneráveis, o médico pode intensificar medidas de tratamento antes que ocorra um evento grave. Isso inclui ajustes na medicação para controle do colesterol, pressão arterial e inflamação, além de orientar mudanças mais rigorosas no estilo de vida. Em situações específicas, essa informação também pode ajudar a definir a melhor estratégia durante procedimentos como o cateterismo, tornando a abordagem mais precisa e personalizada. Assim, o foco deixa de ser apenas tratar uma obstrução já instalada e passa a ser reduzir o risco de ruptura de placas perigosas.
O uso do NIRS-IVUS é mais indicado para pacientes que já apresentam doença coronariana conhecida ou múltiplos fatores de risco, como diabetes, hipertensão, colesterol elevado e histórico familiar de infarto. Ele também pode ser útil em pessoas que já tiveram um evento cardíaco prévio e necessitam de uma avaliação mais detalhada das artérias, ou em casos nos quais as lesões são intermediárias e a decisão terapêutica não é tão clara pelos métodos tradicionais.
Para ver um exemplo ilustrado dessa tecnologia e entender como o NIRS-IVUS mostra a composição da placa dentro das artérias, confira este artigo com imagens explicativas sobre como o método identifica placas de alto risco.
Evidências e impacto clínico
Estudos clínicos demonstraram que placas ricas em gordura, identificadas por essa tecnologia, estão associadas a maior probabilidade de eventos cardiovasculares futuros. Esses achados reforçam a importância de reconhecer precocemente as placas mais perigosas e agir antes que elas se rompam. Dessa forma, o NIRS-IVUS passa a integrar um conjunto de ferramentas que ampliam a capacidade de previsão e prevenção do infarto.
O infarto do miocárdio não surge de forma repentina, mas é consequência de alterações progressivas nas artérias do coração. A possibilidade de identificar placas instáveis antes que elas causem um evento representa um avanço importante na cardiologia moderna. O NIRS-IVUS contribui para essa mudança ao permitir uma análise mais detalhada da composição das placas, ajudando a direcionar estratégias preventivas e tratamentos mais individualizados. Com isso, a prática médica caminha para um modelo cada vez mais voltado à antecipação do risco e à proteção do paciente.










