Válvula Mitral: Quando a técnica cirúrgica faz diferença
Quando confrontamos a decisão de substituir uma válvula mitral doente, a técnica cirúrgica que escolhemos pode ter impacto real sobre a função do ventrículo esquerdo e, consequentemente, sobre os desfechos dos nossos pacientes. Uma das grandes evoluções na técnica de
troca valvar mitral foi o conceito de
preservar o aparelho
subvalvar, ou seja, manter as cordas tendíneas e músculos papilares conectados ao ventrículo mesmo após a substituição da válvula.
Essa preservação não é apenas um detalhe técnico: ela representa uma abordagem pensada para proteger a geometria e a função do ventrículo esquerdo, um aspecto essencial para a recuperação e longevidade do paciente após cirurgia valvar.
Entendendo o papel do aparelho subvalvar
Anatomicamente, o aparelho subvalvar, composto pelas cordas tendíneas e músculos papilares, faz parte da estrutura que mantém a integridade mecânica do ventrículo esquerdo. Ele não age apenas como um “sistema de amarras” da válvula, mas é fundamental para a continuidade ânulo-papilar, que ajuda a distribuir forças durante a sístole e a manter a geometria ventricular adequada.
A remoção completa desse aparato tem sido associada, historicamente, a alterações desfavoráveis na cinética e no remodelamento ventricular após a cirurgia, especialmente em pacientes com disfunção ventricular pré-existente. Por isso, já nas primeiras décadas da cirurgia cardíaca moderna, técnicas foram desenvolvidas para manter essas estruturas sempre que possível PMC.
O que os estudos mostram
A literatura acumulada ao longo de décadas sugere que a preservação subvalvar durante a troca valvar mitral pode trazer vantagens reais. Uma meta-análise que incluiu mais de 3.800 pacientes comparou resultados de trocas valvares com e sem preservação do aparelho subvalvar e encontrou que a preservação está associada a menor mortalidade de curto e médio prazo e menor incidência de síndrome de baixo débito pós-operatório, dois desfechos que impactam diretamente a recuperação inicial do paciente após cirurgia cardíaca.
Além disso, embora a função ventricular esquerda nem sempre seja dramaticamente diferente logo no pós-operatório imediato, a tendência de melhor manutenção da função a longo prazo com preservação tem sido observada em variados estudos, reforçando a importância da continuidade ânulo-papilar para a eficiência hemodinâmica do coração PubMed.
Outro estudo clássico, ainda citado em centros de referência, mostrou que a preservação completa do aparelho subvalvar está associada a sobrevida maior ao longo de 10 anos, comparado com a técnica tradicional sem preservação, sugerindo não apenas benefício imediato, mas também ganho em qualidade de vida ajustada pelo tempo de sobrevida quando essa técnica é empregada.
Quando a Preservação é mais indicada
Embora a preservação do aparelho subvalvar seja desejável, não é sempre tecnicamente possível. Ela depende de fatores como:
- Estado anatomofuncional da valva (lesão degenerativa com cordas flexíveis vs. calcificação extensiva)
- Presença de endocardite ou processo inflamatório que destruiu as cordas
- Anatomia ventricular complicada por remodelamento severo
Mesmo assim, sempre que as condições cirúrgicas permitem, a preservação deve ser considerada, especialmente em pacientes com função ventricular comprometida ou risco elevado de baixo débito no pós-operatório.
Técnicas e Considerações Operatórias
A preservação subvalvar pode ser total ou parcial. A preservação total mantém todos os componentes do aparelho, enquanto a preservação parcial mantém apenas parte das cordas, geralmente do folheto posterior, quando o folheto anterior está muito doente ou calcificado.
Independente da técnica, ela exige:
- Planejamento cuidadoso durante a cirurgia
- Estabilização adequada das cordas para não atrapalhar o funcionamento da prótese
- Reconstrução anatômica que respeite o eixo do ventrículo esquerdo
Quando bem executada, a preservação não interfere no funcionamento da prótese nem aumenta complicações como obstrução do trato de saída ventricular ou disfunção protética, desde que a técnica seja feita com rigor e em centros com experiência comprovada.
A preservação do aparelho subvalvar durante a troca valvar mitral não deve ser vista apenas como um refinamento técnico, mas como uma escolha cirúrgica fundamentada em evidências sólidas e em uma compreensão mais profunda da fisiologia cardíaca. Ao respeitar a continuidade ânulo-papilar e a geometria ventricular, essa abordagem contribui para a proteção da função do ventrículo esquerdo e para melhores desfechos clínicos ao longo do tempo.
A cirurgia valvar mitral vai além da simples troca de uma válvula doente e exige decisões que impactam diretamente a recuperação, a qualidade de vida e a sobrevida do paciente. Nesse contexto, a técnica empregada deixa de ser apenas um detalhe operatório e passa a ser parte central da estratégia terapêutica.
Incorporar, sempre que possível, a preservação do aparelho subvalvar nas trocas valvares mitrais reflete um compromisso com uma cirurgia mais fisiológica, individualizada e orientada para resultados duradouros. É essa atenção aos detalhes, sustentada pela ciência e pela experiência, que faz, de fato, a diferença na prática da cirurgia cardiovascular contemporânea.










