Tudo sobre insuficiência cardíaca grave: sintomas, causas, diagnóstico e tratamento

Dr. Fernando Figueira • June 1, 2023

problema precocemente e iniciar o tratamento antes que a situação piore, colocando em risco a vida do paciente.

Dada a seriedade e o potencial risco da insuficiência cardíaca, é crucial que os pacientes, familiares, pessoas com histórico familiar da doença, ou aqueles que estão em risco, entendam o que é essa condição, quais são os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.



O que é a insuficiência cardíaca grave?

A insuficiência cardíaca grave consiste em uma alteração no miocárdio que impede o bombeamento correto e suficiente do sangue para o corpo.


Os sintomas da insuficiência cardíaca grave vão depender diretamente do tipo de ocorrência, pois ela pode se apresentar de diferentes formas, como:

  • Insuficiência cardíaca crônica na qual o quadro se desenvolve gradualmente, geralmente por condições associadas, como a hipertensão arterial ou alterações anatômicas no órgão;
  • Insuficiência cardíaca descompensada, quando a condição crônica fica instável devido à falta de tratamento;
  • Insuficiência cardíaca congestiva, quando ocorre o acúmulo de líquidos nos pulmões, pernas e abdômen devido à má circulação sanguínea;
  • Insuficiência cardíaca grave, quando ocorre necessidade de internamentos frequentes por piora da insuficiência cardíaca e, a despeito de medicamentos e orientações, o paciente não mais consegue ter alta hospitalar.


Antes de conhecer quais são os sintomas da insuficiência cardíaca grave, entretanto, é importante entender como funciona o coração e quais são os tipos de insuficiência que podem acometê-lo.


O coração é formado por dois ventrículos, o esquerdo e o direito, dois átrios, esquerdo e direito, artéria aorta e artéria pulmonar.


O lado esquerdo do coração, juntamente com a artéria aorta, é responsável pelo bombeamento do sangue com oxigênio para o corpo, nutrindo as células.


O lado direito do coração bombeia o sangue para os pulmões por meio da artéria pulmonar, garantindo a absorção de oxigênio.


A insuficiência cardíaca grave refere-se ao coração que não consegue desempenhar uma ou ambas as funções corretamente. A patologia pode se manifestar como:

  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFER – ou sistólica): consiste na incapacidade de ejeção do sangue para os tecidos devido a alterações na contração do músculo cardíaco;
  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP – ou diastólica): refere-se a problemas no relaxamento do coração, deixando o músculo enrijecido, o que prejudica a capacidade de se encher de sangue, ainda que a ejeção esteja adequada.


Em ambos os casos, o resultado é que o sangue se acumula na região, como nos pulmões, veias ou ambos, comprometendo a circulação sanguínea.



Quais são as causas da insuficiência cardíaca?

As causas da insuficiência cardíaca são diversas, sendo que algumas são modificáveis pelo paciente e outras não.


O paciente acometido por algumas cardiopatias está mais propenso a casos de insuficiência cardíaca grave. Entre elas estão:

  • Doença arterial coronariana, com obstrução parcial do fluxo sanguíneo até uma obstrução total (infarto);
  • Miocardite (inflamação do músculo cardíaco);
  • Infarto prévio;
  • Alterações na conexão entre as câmaras cardíacas, como em caso de defeito do septo ventricular;
  • Valvulopatias;
  • Distúrbios que acometem o sistema elétrico do coração;
  • Distúrbios que enrijecem o coração;
  • Histórico familiar de cardiopatias.


Além das alterações no funcionamento do coração em si, outras condições de saúde podem favorecer o desenvolvimento da insuficiência cardíaca, como: alguns distúrbios genéticos, hipertensão arterial, diabetes, insuficiência renal, distúrbios da tireoide, dislipidemia e anemia crônica.


Há ainda fatores comportamentais e ambientais, como uso de alguns tipos de medicamentos, como os quimioterápicos, ingestão de toxinas, como bebidas alcoólicas, tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada. 



Sintomas da insuficiência cardíaca grave

Os sintomas da insuficiência cardíaca grave podem variar bastante, dependendo do quão séria é a doença e de quais problemas específicos de saúde o paciente está enfrentando. Em geral, os sintomas tendem a piorar à medida que o paciente envelhece.


Um estudo da American Heart Association de 2019 confirmou que a incidência de insuficiência cardíaca aumenta com a idade. De fato, a maioria das pessoas hospitalizadas pela condição tem 65 anos ou mais.


O que torna esse quadro especialmente desafiador é que seus sintomas podem surgir lentamente, ao longo do tempo. Isso significa que as pessoas muitas vezes não associam os sintomas que estão enfrentando a um problema de coração. Os sintomas da insuficiência cardíaca podem incluir:

  • Falta de ar ao realizar atividades mais exaustivas e, progressivamente, em práticas cotidianas, como caminhar ou carregar peso e até em repouso;
  • Fadiga crônica que, em estágios mais avançados, ocorre mesmo em repouso;
  • Acúmulo de líquidos (edema) e inchaço nas pernas, especialmente ao final do dia;
  • Dor ou desconforto no peito, que se manifesta como aperto ou queimação;
  • Tosse seca, principalmente durante a noite;
  • Palpitação ou sensação de coração acelerado;
  • Calafrios;
  • Tonturas e desmaios;
  • Palidez ou coloração azulada na pele nas extremidades;
  • Confusão mental e prejuízo da memória.


Em idosos, os sintomas da insuficiência cardíaca grave podem ser mais variados, incluindo sonolência e desorientação.


Em casos de insuficiência cardíaca grave em estágio avançado, o paciente pode começar a apresentar a respiração de Cheyne-Stokes, que consiste em períodos curtos no qual o paciente para de respirar seguindo-se uma respiração mais rápida e profunda.


A respiração de Cheyne-Stokes ocorre devido à redução do fluxo sanguíneo nas regiões do cérebro responsáveis pela respiração.


Outra ocorrência associada à quadros avançados da condição é o edema pulmonar devido ao acúmulo de líquidos na região.


Além de dificuldade respiratória extrema, a condição inclui sintomas como pele azulada, inquietação, ansiedade e asfixia.


É possível ainda que haja a formação de coágulos sanguíneos nas câmaras do coração quando houver lesão ou comprometimento da função.


Em alguns casos, os sintomas incluem depressão devido às alterações hormonais que consistem em uma tentativa do corpo de compensar a disfunção cardíaca.


É comum que em quadros iniciais de insuficiência cardíaca o paciente apresente poucos sintomas e com manifestações leves, sendo que um sinal de alerta costuma ser a intensificação desses incômodos, principalmente quando houverem manifestações mesmo durante o repouso.


A insuficiência cardíaca grave também é uma forma de enquadrar eventos agudos e súbitos, como o próprio infarto do miocárdio.


Nesse caso, a progressão dos sintomas ocorre em poucos dias, com aumento da falta de ar, sensação de cansaço, formigamento e dormência no braço esquerdo e dor no peito que se manifesta como aperto ou queimação e que pode irradiar para pescoço, costas, braços e abdômen.


É importante explicar detalhadamente a manifestação da dor ao médico e quais são os sintomas associados, uma vez que os sinais do infarto são frequentemente confundidos com a dor estomacal intensa.


Quanto mais cedo os sintomas da insuficiência cardíaca grave são identificados pelo paciente e o auxílio médico acionado, menores as chances de manifestações mais graves e complicações.


Idealmente, homens e mulheres devem fazer acompanhamento cardiológico precoce, especialmente se compõem o grupo de risco para doenças cardíacas.



Diagnóstico da insuficiência cardíaca grave

O diagnóstico é baseado inicialmente nos sintomas da insuficiência cardíaca grave que são informados pelo paciente durante a anamnese.


Além disso, entretanto, podem ser solicitados exames que permitam confirmar o diagnóstico e detalhá-lo, como identificando a gravidade do quadro, tipo de insuficiência cardíaca e área do coração acometida. São alguns exames que auxiliam a etapa diagnóstica:

  • Radiografia do tórax;
  • Eletrocardiograma em repouso (ECG);
  • Ecocardiograma;
  • Prova de esforço (estresse);
  • Exames de sangue;
  • Tomografia computadorizada;
  • Ressonância magnética (RM);
  • Cateterismo cardíaco com angiografia.


A definição de qual o método diagnóstico mais apropriado depende diretamente da avaliação médica especializada do caso, incluindo: intensidade dos sintomas, idade do paciente, histórico médico e outros.


O diagnóstico precoce é viável mesmo quando o paciente ainda não apresenta sintomas da insuficiência cardíaca grave.


Nesses casos, é possível iniciar um tratamento preventivo bem como mudanças no estilo de vida que minimizem as chances de agravamento da condição cardíaca identificada.



Tratamento da insuficiência cardíaca grave

A definição do tratamento da insuficiência cardíaca grave varia conforme a gravidade do caso, complicações associadas, sintomas e idade do paciente.



Estilo de vida

Independentemente do caso, é comum que o paciente receba orientações relacionadas ao estilo de vida, tendo em vista a melhora do bem-estar e sobrevida.

Essas mudanças são benéficas em pacientes com risco cardíaco elevado ou mesmo para pessoas com predisposição de desenvolver insuficiência cardíaca. Algumas recomendações incluem:

  • Interromper o tabagismo;
  • Reduzir o consumo de bebidas alcóolicas;
  • Praticar atividades físicas regularmente;
  • Ter uma alimentação balanceada com redução do consumo de sal, açúcar e gorduras;
  • Fazer controle do peso.


Tais mudanças visam um estilo de vida mais saudável, o que favorece a saúde não apenas do coração, mas do organismo como um todo.



Medicamento

Existem diversas opções de terapias medicamentosas que podem ser prescritas pelo médico para aliviar a manifestação dos sintomas cardíacos e também para melhorar a sobrevida do paciente.


Alguns pacientes demandam terapia medicamentosa continua, como aqueles com infarto prévio, sendo indispensável o acompanhamento regular com cardiologista.



Terapias não-medicamentosas

Em geral, as terapias não-medicamentosas podem ser combinadas com uso de medicamentos para cardiopatias. Essas são indicações muito específicas e que dependem de avaliação cardíaca individual. Algumas condutas incluem:

  • Cardioversor desfibrilador implantável (CDI) – dispositivo que faz o monitoramento constantemente do ritmo cardíaco, aplicando o tratamento automaticamente quando identifica arritmias;
  • Terapia de ressincronização cardíaca – dispositivo implantável de coração que emite pulsos elétricos para sincronizar o ritmo das câmaras inferiores;
  • Suporte circulatório mecânico – consiste em bombas mecânicas acopladas ao coração para auxiliar ou substituir a função da bomba cardíaca comprometida pela insuficiência, mantendo o fluxo de sangue adequado.


As terapias para tratamento da insuficiência cardíaca grave podem ser usadas para restaurar a saúde do paciente, para intermediar um período crítico até estabilização do quadro, para estabilizar o quadro até um transplante cardíaco e outras funções, a depender do caso.



Cirurgia cardíaca

Existem diferentes tipos de cirurgia cardíacas que viabilizam restaurar a função cardíaca do paciente em casos de insuficiência cardíaca grave, como em alterações valvulares e outras. Incluem-se entre as cirurgias cardíacas: 

  • Cirurgia Valvar: Esta cirurgia visa reparar ou substituir as válvulas do coração que estão danificadas ou não funcionam corretamente. As válvulas do coração têm a importante função de permitir que o sangue flua em apenas uma direção através do coração. Quando elas não funcionam adequadamente, levam a sintomas de insuficiência cardíaca.
  • Cirurgia de Revascularização Miocárdica (Ponte de Safena): Essa cirurgia é feita para melhorar o fluxo sanguíneo para o coração. Durante o procedimento, o cirurgião usa um vaso sanguíneo de outra parte do corpo para criar um "desvio" ou "ponte" em torno das artérias coronárias bloqueadas. Isso ajuda a restaurar o suprimento de sangue adequado para o coração.
  • Cirurgia da Aorta: A aorta é a maior artéria do corpo e é responsável por levar o sangue rico em oxigênio do coração para o resto do corpo. 
  • Implante de Marcapassos e Cardiodesfibriladores: Esses dispositivos são implantados no corpo para ajudar a regular o ritmo do coração. Um marcapasso pode ser usado se o coração estiver batendo muito lentamente, enquanto um cardiodesfibrilador pode ser usado se o coração estiver batendo de forma irregular ou muito rápido. Ambos podem ajudar a prevenir complicações graves da insuficiência cardíaca, como uma parada cardíaca.


A indicação de cada uma dessas condutas depende sempre da avaliação especializada, considerando também os sintomas da insuficiência cardíaca grave.



Transplante cardíaco

Para casos de insuficiência cardíaca grave e irreversível, o cirurgião cardiovascular pode recomendar a realização do transplante cardíaco.


Existem diferentes critérios avaliados em bons candidatos para transplante cardíaco, incluindo estado geral de saúde, idade, gravidade e irreversibilidade da patologia cardíaca e outros.


Dadas as diferentes opções de tratamento para insuficiência cardíaca grave será sempre necessário que haja uma avaliação individualizada considerando as especificidades do caso.


Também pode ser indicado recorrer ao cirurgião cardiovascular para uma segunda opinião médica, com avaliação da recomendação inicial, especialmente se envolver procedimentos cirúrgicos de alta complexidade.



Prevenção da insuficiência cardíaca grave

A insuficiência cardíaca grave nem sempre pode ser evitada, especialmente quando relacionada a outras condições cardíacas e doenças em geral.


Entretanto, as chances de desenvolver a condição são significativamente menores para pessoas que, mesmo com predisposição, adotam medidas preventivas.


A prevenção da insuficiência cardíaca grave está relacionada principalmente a manutenção de um estilo de vida saudável e equilibrado, com cuidados como:

  • Praticar exercícios físicos regularmente;
  • Não fazer uso de substâncias tóxicas, incluindo tabaco e álcool;
  • Ter uma alimentação balanceada, priorizando a presença de vegetais, legumes, frutas, hortaliças, grãos, óleos saudáveis e cereais integrais;
  • Manter um sono de qualidade e investigar caso haja distúrbios do sono, como ronco, apneia e insônia;
  • Manter-se dentro do peso ideal, melhorando o IMC;
  • Diagnosticar, tratar e monitorar doenças que possam causar alterações cardíacas, como hipertensão, distúrbios da tireoide, diabetes e outras.


Além das orientações relacionadas aos fatores de risco modificáveis, o que inclui diferentes aspectos dos hábitos de vida, recomenda-se ainda que seja feito o acompanhamento médico regular para evitar agravamento ou complicação do caso.


A promoção da saúde geral do paciente é a melhor aliada à saúde cardíaca, sendo possível alcançá-la com cuidados diários associados à alimentação, descanso e condicionamento físico. 


A assistência cardiológica é importante para todas as pessoas e, quando precoce e preventiva, melhores são as chances de prognósticos favoráveis.


Pacientes com cardiopatias diagnosticadas ou mesmo em caso de sintomas da insuficiência cardíaca grave é fundamental ter o acompanhamento de profissionais capacitados e experientes.


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By Fernando Figueira June 16, 2026
Quando pensamos em saúde cardiovascular, é comum que a atenção se volte para fatores como colesterol, pressão arterial, diabetes, obesidade e sedentarismo. Todos eles são, sem dúvida, importantes. No entanto, existe um problema silencioso que vem ganhando destaque na literatura científica e que ainda é pouco conhecido pela população: a sarcopenia . A palavra pode parecer complexa, mas o conceito é simples. Sarcopenia é a perda progressiva de massa muscular, força e desempenho físico que ocorre principalmente com o envelhecimento. Embora muitas pessoas enxerguem esse processo como uma consequência natural da idade, hoje sabemos que ele está associado a um aumento significativo do risco de doenças, internações, perda de independência e até mortalidade. Mais do que uma questão estética, a perda muscular é um importante marcador de saúde. Em muitos casos, pode representar um risco tão relevante quanto o excesso de gordura corporal. O músculo é muito mais do que movimento Durante muito tempo, os músculos foram vistos apenas como estruturas responsáveis pelos movimentos do corpo. Atualmente, a ciência entende que eles funcionam como um verdadeiro órgão metabólico. O tecido muscular participa do controle da glicose, da regulação hormonal, da resposta inflamatória e do equilíbrio energético do organismo. Em outras palavras, músculos saudáveis ajudam a proteger o coração, os vasos sanguíneos e praticamente todos os sistemas do corpo. Quando ocorre perda muscular significativa, o organismo se torna mais vulnerável a diversas doenças. Estudos demonstram que indivíduos com baixa massa muscular apresentam maior risco de desenvolver diabetes tipo 2, síndrome metabólica, fragilidade física, quedas, hospitalizações frequentes e doenças cardiovasculares. Além disso, a redução da musculatura frequentemente leva à diminuição da atividade física, criando um ciclo negativo que favorece o ganho de gordura corporal, o aumento da inflamação e a piora da saúde cardiovascular. A armadilha da balança Um dos aspectos mais interessantes da sarcopenia é que ela pode passar despercebida por muitos anos. Muitas pessoas acreditam estar saudáveis porque mantêm um peso aparentemente normal. Entretanto, o peso corporal isoladamente não conta toda a história. É possível perder massa muscular e ganhar gordura ao mesmo tempo, mantendo praticamente o mesmo peso na balança. Esse fenômeno é conhecido como obesidade sarcopênica. Nessa condição, o indivíduo apresenta excesso de gordura corporal associado à redução da massa muscular. O resultado é uma combinação particularmente perigosa, associada a maior inflamação sistêmica, pior controle metabólico e aumento do risco cardiovascular. Por isso, avaliar apenas o peso ou o índice de massa corporal (IMC) nem sempre é suficiente para compreender o verdadeiro estado de saúde de uma pessoa. O impacto da sarcopenia no coração A relação entre sarcopenia e doenças cardiovasculares tem despertado cada vez mais interesse entre pesquisadores. Diversos estudos demonstram que pacientes com perda muscular significativa apresentam maior incidência de insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana e complicações cardiovasculares em geral. Parte dessa associação pode ser explicada pela inflamação crônica de baixo grau, um processo biológico que acelera tanto a perda muscular quanto o desenvolvimento da aterosclerose. Outro fator importante é a redução da capacidade funcional. Quando os músculos perdem força, atividades simples do dia a dia tornam-se mais difíceis. O indivíduo passa a caminhar menos, sobe menos escadas, pratica menos exercícios e reduz progressivamente sua capacidade cardiorrespiratória. Com o passar dos anos, essa redução da atividade física contribui para um declínio ainda maior da saúde cardiovascular. O que a sarcopenia significa para pacientes cirúrgicos? Como cirurgião cardiovascular, observo diariamente a importância da reserva muscular na recuperação dos pacientes. Hoje sabemos que a condição física antes de uma cirurgia pode influenciar significativamente os resultados pós-operatórios. Pacientes com maior fragilidade muscular costumam apresentar maior risco de complicações, recuperação mais lenta, permanência prolongada em unidades de terapia intensiva e maior necessidade de reabilitação. Por outro lado, indivíduos que chegam ao procedimento com melhor condicionamento físico frequentemente apresentam recuperação mais rápida e retomam suas atividades de forma mais precoce. Esse conhecimento tem levado ao desenvolvimento do conceito de pré-habilitação , uma estratégia que busca preparar o paciente antes da cirurgia por meio de exercícios físicos, orientação nutricional e otimização das condições clínicas. Em vez de focar apenas no procedimento cirúrgico, a medicina moderna tem olhado cada vez mais para o paciente como um todo. Por que estamos perdendo músculos mais cedo? Embora o envelhecimento seja um dos principais fatores relacionados à sarcopenia, ele não é o único. O estilo de vida contemporâneo contribui de forma importante para esse problema. Longos períodos sentados, redução das atividades físicas diárias, alimentação inadequada, sono insuficiente e níveis elevados de estresse favorecem a perda gradual de massa muscular mesmo em pessoas relativamente jovens. Além disso, doenças crônicas como diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal crônica e câncer podem acelerar esse processo. O resultado é que muitos indivíduos chegam aos 50 ou 60 anos com uma reserva muscular muito inferior à que poderiam ter mantido ao longo da vida. É possível prevenir a sarcopenia? A boa notícia é que sim. Diferentemente de muitos fatores relacionados ao envelhecimento, a perda muscular pode ser retardada e, em muitos casos, parcialmente revertida. As principais estratégias incluem: Exercícios de força: A musculação e outras formas de treinamento resistido continuam sendo as intervenções mais eficazes para preservar e aumentar a massa muscular. Não se trata apenas de ganhar músculos por questões estéticas. Trata-se de preservar funcionalidade, independência e saúde cardiovascular. Alimentação adequada: A ingestão adequada de proteínas desempenha papel fundamental na manutenção da musculatura. Carnes magras, ovos, leite e derivados, leguminosas e outras fontes proteicas devem fazer parte de uma alimentação equilibrada, sempre respeitando as necessidades individuais. Atividade física regular: Além dos exercícios de força, caminhadas, ciclismo, natação e outras atividades aeróbicas ajudam a preservar a saúde cardiovascular e a capacidade funcional. Sono e recuperação: O processo de reconstrução muscular ocorre principalmente durante os períodos de descanso. Dormir mal está associado à pior recuperação muscular e ao aumento de marcadores inflamatórios.  Por muito tempo, o foco da medicina esteve em combater doenças já estabelecidas. Hoje, cada vez mais, buscamos identificar fatores que influenciam a saúde antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Nesse contexto, a sarcopenia surge como um dos grandes desafios do envelhecimento moderno. Não basta apenas viver mais. É preciso preservar a capacidade de caminhar, subir escadas, realizar atividades cotidianas e manter autonomia ao longo dos anos. A massa muscular deixou de ser apenas uma questão relacionada à força física. Ela passou a ser reconhecida como um dos pilares da saúde metabólica, cardiovascular e funcional. Quando falamos sobre prevenção cardiovascular, normalmente pensamos em controlar a pressão arterial, reduzir o colesterol ou evitar o tabagismo. Tudo isso continua fundamental. Mas existe uma mensagem que merece cada vez mais atenção: preservar músculos é preservar saúde. A perda progressiva de massa muscular não deve ser encarada como uma consequência inevitável da idade. Ela representa um sinal de alerta que pode impactar profundamente a qualidade de vida, a independência funcional e até mesmo os resultados de tratamentos complexos, incluindo cirurgias cardiovasculares. O envelhecimento saudável não depende apenas de um coração forte. Ele também exige músculos capazes de sustentar a autonomia, a mobilidade e a vitalidade ao longo da vida. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer hoje não seja apenas "como está o meu colesterol?", mas também: "como está a minha força?".
By Fernando Figueira June 13, 2026
A cirurgia cardiovascular vive um momento fascinante. Ao longo das últimas décadas, os avanços da cirurgia de peito aberto transformaram doenças antes fatais em condições tratáveis, permitindo que milhões de pessoas recuperassem sua qualidade de vida e ganhassem anos de vida com segurança e excelentes resultados. Como cirurgião cardiovascular, acompanho de perto essa evolução. E uma das questões mais interessantes da atualidade é observar como novas tecnologias vêm ampliando as opções terapêuticas disponíveis para os pacientes. É importante destacar, entretanto, que inovação não significa substituição. A cirurgia convencional continua sendo o tratamento de escolha para muitos casos e segue oferecendo resultados extraordinários quando bem indicada. O que estamos presenciando é uma ampliação do arsenal terapêutico da cardiologia e da cirurgia cardiovascular, permitindo que cada paciente receba um tratamento cada vez mais personalizado. Entre essas inovações, uma das que mais chamam atenção é o MitraClip, uma tecnologia minimamente invasiva desenvolvida para o tratamento da insuficiência mitral em pacientes com alto risco cirúrgico. Entendendo a insuficiência mitral A válvula mitral é responsável por controlar o fluxo sanguíneo entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. Quando ela não consegue fechar adequadamente, parte do sangue retorna na direção contrária durante a contração do coração. Essa condição é chamada insuficiência mitral. Dependendo da gravidade do problema, o paciente pode apresentar sintomas como falta de ar, cansaço aos esforços, palpitações, redução da capacidade física e episódios frequentes de insuficiência cardíaca. Durante muitos anos, a cirurgia convencional foi a principal alternativa para corrigir esse defeito. E continua sendo, em muitos casos, a melhor opção disponível. Os procedimentos cirúrgicos permitem reparar ou substituir a válvula mitral com excelentes índices de sucesso e durabilidade. Em pacientes adequadamente selecionados, especialmente aqueles com menor risco cirúrgico, a cirurgia continua sendo considerada o padrão de referência para o tratamento da insuficiência mitral significativa. No entanto, existe um grupo de pacientes que apresenta um desafio especial: idosos muito fragilizados, portadores de múltiplas doenças associadas ou pessoas que já passaram por procedimentos cardíacos anteriores e possuem risco elevado para uma nova cirurgia. Foi justamente para esse perfil de paciente que surgiram as terapias transcateter. O que é o MitraClip? O MitraClip é um dispositivo utilizado em um procedimento chamado reparo transcateter borda a borda da válvula mitral, conhecido internacionalmente como TEER (Transcatheter Edge-to-Edge Repair) . Diferentemente da cirurgia convencional, o procedimento é realizado por meio de um cateter introduzido pela veia femoral, na região da virilha. Guiado por exames de imagem em tempo real, o dispositivo é levado até a válvula mitral, onde promove a aproximação dos seus folhetos, reduzindo o refluxo sanguíneo. O conceito não é totalmente novo para os cirurgiões cardiovasculares. Na verdade, ele reproduz por via percutânea princípios já conhecidos da técnica cirúrgica desenvolvida por Ottavio Alfieri, amplamente utilizada no reparo da válvula mitral. A grande diferença está na forma de acesso ao coração, evitando a abertura do tórax e a necessidade de circulação extracorpórea em pacientes selecionados. Cirurgia convencional e procedimentos minimamente invasivos: concorrentes ou aliados? Uma dúvida comum entre pacientes é se as novas tecnologias irão substituir a cirurgia cardíaca tradicional. A resposta é simples: não. A cirurgia convencional permanece insubstituível em diversas situações clínicas. Muitos pacientes se beneficiam de reparos valvares complexos que somente a cirurgia consegue oferecer. Além disso, os resultados de longo prazo da cirurgia continuam sendo extremamente consistentes, especialmente em pacientes mais jovens e com anatomia favorável. Por outro lado, tecnologias como o MitraClip permitem tratar pacientes que muitas vezes não teriam condições de enfrentar uma cirurgia convencional com segurança. Portanto, não se trata de escolher entre uma técnica ou outra. O mais importante é identificar qual estratégia oferece o melhor equilíbrio entre eficácia, segurança e qualidade de vida para cada indivíduo. Essa é justamente a essência da medicina moderna: personalizar o tratamento. O que mostram os estudos? O principal estudo que consolidou o papel do MitraClip foi o COAPT, publicado inicialmente no New England Journal of Medicine. A pesquisa avaliou pacientes com insuficiência mitral secundária grave associada à insuficiência cardíaca que permaneciam sintomáticos apesar do tratamento clínico otimizado. Os resultados foram expressivos. Os pacientes submetidos ao procedimento apresentaram redução significativa das hospitalizações por insuficiência cardíaca, melhora da qualidade de vida e redução da mortalidade quando comparados ao tratamento clínico isolado. Em uma das análises mais conhecidas do estudo, a taxa de hospitalização por insuficiência cardíaca em dois anos caiu de 56,4% para 34,8% entre os pacientes tratados com o dispositivo. Além disso, eles passaram mais tempo vivos e fora do ambiente hospitalar. Esses resultados contribuíram para que o MitraClip fosse incorporado às principais diretrizes internacionais para pacientes criteriosamente selecionados. Mas os resultados do MitraClip não se restringem aos grandes centros internacionais. No Brasil, a experiência com o MitraClip já acumula mais de uma década. Em um dos primeiros relatos nacionais publicados na Revista Brasileira de Cardiologia Invasiva, equipes do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Pró-Cardíaco documentaram os dois primeiros casos realizados no país. Em ambos os pacientes, considerados de alto risco para cirurgia convencional, houve redução significativa da insuficiência mitral após o implante do dispositivo, reforçando a viabilidade e a segurança da técnica em nosso meio. Desde então, o crescimento dos programas de cardiologia estrutural em hospitais de referência tem ampliado o acesso a esse tipo de tratamento, acompanhando uma tendência mundial de expansão das terapias minimamente invasivas. O futuro da cirurgia cardiovascular Quando observamos a evolução da cardiologia nas últimas décadas, fica claro que estamos caminhando para um cenário cada vez mais integrado. Procedimentos como TAVI, MitraClip, intervenções estruturais complexas, planejamento por imagem tridimensional, inteligência artificial e plataformas robóticas estão transformando a forma como avaliamos e tratamos as doenças cardiovasculares. Ao mesmo tempo, a cirurgia cardíaca convencional continua evoluindo. Novas técnicas de preservação de tecidos, avanços anestésicos, melhor controle perioperatório e o refinamento dos procedimentos reconstrutivos têm contribuído para resultados cada vez melhores. Por isso, acredito que o futuro não pertence exclusivamente às terapias percutâneas nem exclusivamente à cirurgia convencional. O futuro pertence à integração dessas abordagens. O conceito de Heart Team — no qual cirurgiões, cardiologistas clínicos, hemodinamicistas, especialistas em imagem e outros profissionais discutem conjuntamente cada caso — representa exatamente essa nova visão da medicina cardiovascular. A história da cirurgia cardíaca sempre foi marcada pela inovação. O que hoje consideramos procedimentos tradicionais já foi, um dia, uma revolução tecnológica. O MitraClip é mais um capítulo dessa trajetória. Ele não substitui a cirurgia convencional, mas amplia as possibilidades de tratamento para pacientes que antes possuíam poucas alternativas terapêuticas. Como cirurgiões cardiovasculares, temos o compromisso de acompanhar essas transformações sem perder de vista aquilo que permanece essencial: oferecer ao paciente o tratamento mais adequado, baseado em evidências científicas, experiência clínica e avaliação individualizada.  A verdadeira evolução da medicina não está em trocar uma técnica por outra. Está em utilizar o melhor de cada tecnologia para alcançar o mesmo objetivo que sempre guiou nossa profissão: cuidar das pessoas da forma mais segura, eficaz e humana possível.
By Fernando Figueira May 30, 2026
O tabagismo ainda é frequentemente tratado como uma escolha simples. Uma decisão individual que poderia ser resolvida com disciplina. Na prática, não é assim. Fumar envolve dependência química, comportamento e contexto social ao mesmo tempo. Reduzir esse fenômeno à falta de força de vontade ignora décadas de evidência científica e também a forma como o próprio hábito foi construído ao longo da história. A nicotina age diretamente no cérebro, estimulando áreas ligadas ao prazer e à recompensa. Esse mecanismo cria um ciclo que reforça o comportamento e dificulta sua interrupção. Não se trata apenas de gosto ou costume. Trata-se de uma dependência com base biológica, que altera o funcionamento do organismo e ajuda a explicar por que muitas pessoas continuam fumando mesmo conhecendo os riscos. Esses riscos são amplos e bem documentados. O cigarro está associado a doenças respiratórias como Doença pulmonar obstrutiva crônica, além de diferentes tipos de câncer e doenças cardiovasculares . Segundo a Organização Mundial da Saúde , o tabaco é responsável por mais de 8 milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, ele segue como um dos principais fatores de risco evitáveis para infarto e acidente vascular cerebral. Um hábito que foi construído ao longo do tempo Mas o tabagismo não se sustenta apenas pela dependência biológica. Existe um componente histórico importante. Durante grande parte do século XX, fumar foi associado a status, liberdade e até sucesso. A indústria do tabaco investiu fortemente em publicidade, influenciando comportamentos e normalizando o hábito em diferentes contextos sociais. Essa herança ainda se reflete hoje, mesmo com a redução do número de fumantes. Nas últimas décadas, o Brasil se destacou internacionalmente pelo enfrentamento do tabagismo. Medidas como restrição de propaganda, aumento de impostos, advertências nas embalagens e ambientes livres de fumo contribuíram para uma queda consistente no número de fumantes. Dados do Ministério da Saúde mostram esse avanço, embora milhões de brasileiros ainda fumem. Parar de fumar, portanto, não é um evento isolado. É um processo. Muitas pessoas tentam várias vezes até conseguir. A recaída faz parte desse caminho e não deve ser interpretada como fracasso, mas como etapa de mudança de comportamento. Existe também uma relação direta entre tabagismo e desigualdade social. O hábito é mais frequente em populações em situação de maior vulnerabilidade, onde fatores como estresse, insegurança econômica e acesso limitado a serviços de saúde dificultam a interrupção. O desafio atual vai além do indivíduo  Outro ponto relevante é que os danos do tabaco não se restringem ao longo prazo. O impacto no sistema cardiovascular começa cedo, com alterações na circulação e aumento do risco de eventos graves. Em muitos casos, o cigarro acelera processos que já estavam em curso. Nos últimos anos, novos dispositivos, como cigarros eletrônicos, passaram a ocupar espaço nesse cenário. Muitas vezes apresentados como alternativas mais seguras, eles mantêm a dependência de nicotina e levantam preocupações importantes, especialmente pelo aumento do uso entre jovens. A percepção de menor risco pode recriar um ciclo que levou décadas para ser reduzido. O tabagismo também afeta quem não fuma. A exposição passiva continua sendo um problema relevante, principalmente em ambientes familiares. Crianças estão entre as mais vulneráveis, o que amplia o impacto do cigarro na sociedade.Apesar de todos esses desafios, parar de fumar traz benefícios rápidos e consistentes. Em poucas semanas, já há melhora da circulação e da função respiratória. Ao longo do tempo, o risco cardiovascular diminui de forma significativa. Parar de fumar é uma das decisões mais importantes para a saúde, especialmente para o coração. Mas não é simples, nem imediato, nem igual para todos. Reconhecer essa complexidade muda a forma como o problema é abordado. Sai a ideia de falha individual e entra uma compreensão mais ampla, que envolve biologia, história e contexto social. É a partir dessa mudança que o cuidado se torna mais efetivo.
By Fernando Figueira May 24, 2026
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By Fernando Figueira May 24, 2026
Falar de Hipertensão arterial é falar de um problema que está em praticamente todas as casas brasileiras, mesmo quando ninguém percebe. No Brasil, cerca de um em cada quatro adultos relata ter pressão alta , e esse número cresce com a idade, ultrapassando 60% entre idosos. Ainda assim, a hipertensão segue sendo tratada como algo secundário, quase banal. Isso acontece porque ela não dói. Não limita de forma imediata. Não interrompe a rotina. Ao contrário de outras doenças, a hipertensão permite que a vida siga aparentemente normal. E é justamente aí que está o problema. Quando os sintomas aparecem, muitas vezes o dano já está instalado. Mais do que escolha, uma questão de contexto Mas reduzir a hipertensão a uma questão individual seria simplificar demais. A pressão alta acompanha a forma como vivemos. Jornadas longas de trabalho, alimentação baseada em ultraprocessados, pouco tempo para atividade física e dificuldade de acesso à saúde fazem parte dessa equação, como mostram levantamentos do Vigitel . Os dados mostram que a doença também é desigual. Pessoas com menor escolaridade têm maior prevalência. Não é só sobre escolher mudar hábitos. É sobre ter condições reais para isso. Muitas pessoas só descobrem que têm pressão alta quando procuram atendimento por outro motivo. E, mesmo após o diagnóstico, manter o tratamento ao longo do tempo nem sempre é simples. A hipertensão exige constância, mas a vida cotidiana nem sempre permite. O desafio não é só tratar, é tornar visível Existe ainda um ponto pouco discutido. Muitas pessoas só descobrem que têm pressão alta quando procuram atendimento por outro motivo. Isso revela uma falha importante na prevenção. A hipertensão não é apenas uma doença mal controlada. É, muitas vezes, uma doença não diagnosticada. Outro ponto importante é a dificuldade de manter o tratamento ao longo do tempo. Mesmo entre pessoas diagnosticadas, a adesão costuma ser irregular. Isso acontece por diferentes motivos. Há quem abandone o uso de medicamentos por não sentir sintomas, quem enfrente efeitos colaterais, e também quem tenha dificuldade de manter acompanhamento contínuo na rede de saúde. A hipertensão exige constância, mas a vida cotidiana nem sempre permite essa regularidade. Além disso, existe uma percepção cultural de que pressão alta faz parte do envelhecimento, como se fosse inevitável. Essa ideia contribui para a naturalização da doença e reduz a urgência em controlá-la. No entanto, embora a prevalência aumente com a idade, isso não significa que suas consequências sejam aceitáveis. Outro desafio está na comunicação. Muitas vezes, o diagnóstico é dado de forma rápida, sem que a pessoa compreenda plenamente o que aquilo significa no longo prazo. Sem entendimento, não há engajamento. E sem engajamento, o cuidado se perde ao longo do tempo. Tornar a hipertensão visível passa também por melhorar a forma como ela é explicada. Não como um número isolado, mas como um risco acumulado que pode ser modificado. Pequenas mudanças sustentadas ao longo do tempo têm impacto real, especialmente quando são possíveis dentro da realidade de cada pessoa.  A pressão alta não é invisível por acaso. Ela é invisível porque se mistura à rotina, às escolhas possíveis e às limitações do dia a dia. Torná-la visível é o primeiro passo para mudar esse cenário. Não apenas no indivíduo, mas na forma como a sociedade organiza sua própria saúde.
By Fernando Figueira May 14, 2026
Durante muito tempo a regra era esperar Por muitos anos, a lógica na medicina cardiovascular foi relativamente simples. Enquanto os sintomas fossem leves ou inexistentes, a conduta mais comum era acompanhar. A cirurgia ficava como última etapa, indicada quando o quadro já estivesse mais avançado ou quando a limitação passasse a impactar a vida diária. Essa abordagem fazia sentido em um contexto em que os procedimentos eram mais invasivos, com maior risco e recuperação mais prolongada. Operar cedo poderia significar expor o paciente a riscos desnecessários. Por isso, esperar era visto como uma forma de proteção. Essa ideia ainda está muito presente no senso comum. Muitos pacientes associam cirurgia cardíaca a um ponto extremo da doença, como se fosse uma última alternativa. O que vem mudando na prática Com o avanço da medicina, essa lógica começou a ser revisada. Hoje se entende que, em algumas condições, esperar pode não ser a melhor estratégia. Em doenças como doença valvar cardíaca , por exemplo, o momento da intervenção faz diferença direta no resultado. Mesmo antes do aparecimento de sintomas, o coração pode já estar sofrendo alterações silenciosas. Ao longo do tempo, isso pode comprometer sua função de forma progressiva. De forma mais ampla, o próprio Ministério da Saúde destaca que as doenças cardiovasculares seguem como uma das principais causas de morte no Brasil, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado. Isso ajuda a entender por que a medicina passou a olhar com mais atenção para o tempo certo de intervir. Não apenas quando os sintomas aparecem, mas antes que o dano se torne mais difícil de reverter. Nem sempre esperar é mais seguro Um dos principais pontos dessa mudança é entender que ausência de sintoma não significa ausência de risco. Em alguns casos, o paciente pode se sentir bem enquanto o coração já está em sobrecarga. Quando a intervenção acontece tardiamente, parte desse impacto pode já estar consolidado. Isso influencia diretamente a recuperação e, em muitos casos, a qualidade de vida depois do tratamento. Além disso, com a evolução das técnicas, hoje existem opções mais modernas, como procedimentos menos invasivos no coração , que permitem tratar determinados casos com mais segurança e recuperação mais rápida. Isso também contribui para repensar o momento ideal da intervenção. Outro ponto importante é que a decisão não envolve apenas sobrevida, mas qualidade de vida. Intervenções feitas no momento adequado podem evitar limitações progressivas, internações frequentes e perda de autonomia. Isso é especialmente relevante em uma população que vive mais e convive por mais tempo com doenças crônicas. O objetivo deixa de ser apenas tratar e passa a incluir preservar a funcionalidade e o bem-estar ao longo dos anos. Uma decisão que não é igual para todo mundo Apesar dessa mudança, não existe uma regra única. A decisão de operar mais cedo ou esperar depende de uma análise individual, que leva em conta exames, evolução da doença e contexto de vida. Por isso, o acompanhamento médico regular continua sendo essencial. É ele que permite identificar o melhor momento de agir. A principal mudança talvez não esteja apenas nas técnicas, mas na forma de pensar. A cirurgia deixou de ser vista como último recurso e passou a ser considerada parte do cuidado em saúde. Em vez de esperar o pior momento, a medicina caminha para identificar o melhor momento e essa diferença muda tudo. Se você quer acompanhar mais conteúdos sobre saúde do coração com uma abordagem clara e baseada em evidência, siga meus perfis nas redes sociais.
By Fernando Figueira April 30, 2026
Um esgotamento que não é só mental Sentir-se cansado no fim do dia é esperado. O problema é quando esse cansaço deixa de ser pontual e passa a ser constante, quando descansar já não resolve e a sensação de estar sempre em alerta se torna parte da rotina. O burnout surge exatamente nesse contexto. Reconhecido como uma síndrome relacionada ao trabalho, ele não aparece de forma abrupta. Vai se instalando aos poucos, muitas vezes silenciosamente, até que o corpo começa a dar sinais mais claros de que algo não está bem. E esses sinais não ficam restritos à saúde mental. O corpo também sente e o coração responde O organismo humano não separa emoção de funcionamento físico. Situações de estresse ativam mecanismos de defesa importantes, com liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Em momentos pontuais, isso é esperado. O problema é quando esse estado se prolonga. Sob estresse crônico, o corpo permanece em um nível elevado de alerta. A frequência cardíaca se mantém mais alta, a pressão arterial pode se elevar e processos inflamatórios passam a ocorrer de forma contínua, ainda que em níveis baixos. Ao longo do tempo, esse conjunto de fatores pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Estudos já associam o estresse crônico a maior incidência de hipertensão, alterações no ritmo do coração e eventos cardíacos, especialmente quando combinado a outros fatores como sedentarismo e alimentação desregulada. Quando os sinais aparecem no dia a dia O burnout raramente se apresenta de forma óbvia. Muitas vezes, ele começa com um cansaço persistente, uma dificuldade de concentração ou uma irritação fora do habitual. Com o tempo, esse quadro pode evoluir para um distanciamento emocional, perda de interesse pelas atividades e uma sensação constante de sobrecarga. Do ponto de vista físico, não é incomum que surjam sintomas como palpitações, sensação de aperto no peito, falta de ar ou um cansaço que não melhora com o descanso. Na prática clínica, é frequente que pacientes procurem atendimento por esses sintomas sem associá-los ao contexto emociona, o que reforça a importância de uma avaliação mais ampla, que considere não apenas exames, mas também a forma como aquela pessoa está vivendo. Cuidar da saúde também é rever o ritmo Falar de coração não é falar apenas de procedimentos ou diagnósticos. É, sobretudo, falar de contexto. Rotinas intensas, jornadas prolongadas, dificuldade de desconectar do trabalho e pouca qualidade de descanso fazem parte da realidade de muitas pessoas hoje. E tudo isso impacta diretamente a saúde. Cuidar, nesse cenário, passa por reconhecer limites, algo que nem sempre é simples. Pequenas mudanças, como reorganizar horários, melhorar a qualidade do sono ou buscar apoio profissional, podem ter efeitos importantes quando mantidas ao longo do tempo. Prevenção também passa por desacelerar  O burnout se tornou cada vez mais comum, mas isso não significa que deva ser normalizado. Identificar os sinais precocemente é uma forma de prevenção — não apenas de transtornos emocionais, mas também de doenças que podem afetar o coração.Em um contexto onde acelerar é quase uma exigência, desacelerar pode ser, na verdade, uma decisão de cuidado.
By Fernando Figueira April 30, 2026
Por muito tempo, a hipertensão foi associada quase exclusivamente ao envelhecimento. A ideia de que pressão alta é uma condição “natural da idade” ainda está presente no imaginário coletivo e isso tem consequências. O principal problema dessa percepção é que ela faz com que pessoas mais jovens simplesmente não se enxerguem em risco. Não medem a pressão, não se preocupam com sinais e, muitas vezes, só descobrem a condição quando ela já está instalada há anos. Hoje, esse cenário vem mudando. Um diagnóstico cada vez mais precoce Dados epidemiológicos mostram um aumento progressivo no número de adultos jovens diagnosticados com hipertensão. No Brasil, estimativas apontam que cerca de 1 em cada 4 adultos tem pressão alta e uma parcela relevante desses casos já aparece antes dos 40 anos. Esse crescimento não acontece por acaso. Ele acompanha mudanças no estilo de vida, como por exemplo, maior consumo de alimentos ultraprocessados, excesso de sódio na dieta, sedentarismo, pior qualidade do sono e níveis elevados de estresse. O que antes era mais comum em faixas etárias mais avançadas, hoje começa a aparecer mais cedo, muitas vezes de forma silenciosa. O risco de minimizar o problema Talvez um dos maiores desafios em relação à hipertensão seja justamente o fato de ela não causar sintomas evidentes na maioria dos casos. Sem dor, sem desconforto imediato, é fácil ignorar. E, entre os mais jovens, isso se soma à ideia de que “ainda não é a hora de se preocupar com isso”. Mas a pressão alta não deixa de agir por falta de sintomas. Ao longo do tempo, ela pode provocar alterações nos vasos sanguíneos e sobrecarregar o coração, aumentando o risco de eventos cardiovasculares no futuro. Quando o diagnóstico acontece tardiamente, muitas dessas mudanças já estão em curso. Idade não é proteção  Existe uma tendência perigosa de associar saúde apenas à juventude. Como se ser jovem fosse, por si só, um fator de proteção suficiente. Na prática, não é. A idade pode influenciar o risco, mas não elimina a possibilidade de adoecimento. Quando hábitos de vida desfavoráveis estão presentes, o organismo responde — independentemente da faixa etária. Ignorar isso é adiar um cuidado que poderia começar muito antes. Diferente de muitas condições, a hipertensão pode ser identificada com uma medida simples: aferir a pressão arterial. Ainda assim, esse é um hábito pouco incorporado por pessoas mais jovens. Muitas vezes, o contato com esse tipo de avaliação só acontece em situações pontuais — e não como parte de um acompanhamento regular. Ampliar essa percepção é um passo importante. Não se trata de antecipar preocupação, mas de incorporar cuidado. Falar de hipertensão hoje é, necessariamente, falar de prevenção em todas as idades. Isso envolve escolhas cotidianas, mas também acesso à informação e acompanhamento adequado. A hipertensão não costuma dar sinais claros, e é exatamente isso que sustenta a falsa sensação de segurança. Enquanto parece distante, ela pode já estar presente, evoluindo de forma silenciosa. Mudar essa percepção é parte essencial do cuidado.
By Fernando Figueira April 11, 2026
Durante muito tempo, o infarto agudo do miocárdio foi associado quase exclusivamente ao envelhecimento. A imagem clássica do paciente cardiopata ainda remete a indivíduos mais velhos, com histórico de doenças acumuladas ao longo da vida. No entanto, essa realidade vem mudando e de forma preocupante. Nos últimos anos, o Brasil tem observado um aumento consistente de infartos em pessoas jovens. Dados do próprio sistema de saúde mostram que as internações por infarto em indivíduos com menos de 39 anos mais que dobraram nas últimas décadas . Esse crescimento evidencia uma mudança importante no perfil da doença cardiovascular. Uma mudança silenciosa no perfil da doença O que antes era considerado um evento raro em jovens passou a ser cada vez mais frequente. Segundo dados do Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares continuam sendo uma das principais causas de morte no país, e o avanço entre pessoas mais jovens já é motivo de alerta entre especialistas . Mais do que números, o que chama atenção é o padrão desses pacientes. Muitos não apresentam histórico clássico de doença cardíaca, o que reforça a ideia de que estamos diante de um novo perfil de risco. De acordo com levantamento divulgado pela Agência Brasil, cerca de um em cada quatro jovens já apresenta alterações como pressão elevada ou colesterol alterado antes dos 40 anos , muitas vezes sem diagnóstico . A matéria completa está disponível aqui: Estilo de vida leva jovens a apresentarem risco cardíaco O impacto do estilo de vida contemporâneo Esse novo cenário não pode ser explicado por um único fator. Ele reflete, principalmente, mudanças profundas no estilo de vida. Entre os principais pontos estão: Sedentarismo prolongado, especialmente associado ao tempo excessivo em telas Alimentação baseada em ultraprocessados Privação de sono Estresse crônico Uso de cigarros eletrônicos (vapes) Especialistas apontam que o cigarro eletrônico, muitas vezes visto como alternativa “mais segura”, pode ter impacto significativo no sistema cardiovascular, inclusive com concentrações elevadas de nicotina . Além disso, o aumento do uso de anabolizantes e outras substâncias também vem sendo associado ao crescimento dos casos em jovens, ampliando ainda mais o risco cardiovascular . Um processo silencioso e progressivo Um dos aspectos mais preocupantes do infarto em jovens é justamente o seu caráter silencioso. Diferente do que muitos imaginam, o evento agudo é apenas o desfecho de um processo que começa anos antes. A formação de placas nas artérias, a inflamação vascular e as alterações metabólicas evoluem de forma gradual, muitas vezes sem sintomas evidentes. Esse processo é agravado pelo fato de que muitos jovens não realizam acompanhamento médico regular. Como consequência, fatores de risco como hipertensão, colesterol elevado e resistência à insulina permanecem sem diagnóstico. Prevenção precoce: um novo paradigma necessário Diante desse cenário, a principal mudança não está apenas no tratamento mas na forma de encarar a prevenção. O infarto em jovens não é um evento isolado. Ele é o resultado de uma combinação de fatores que se acumulam ao longo do tempo. E, por isso, a prevenção precisa começar mais cedo. Isso envolve: Atenção aos sinais do corpo Avaliação periódica de fatores de risco Mudanças sustentáveis no estilo de vida E, principalmente, consciência de que saúde cardiovascular não tem idade  A cardiologia contemporânea caminha para uma abordagem cada vez mais preventiva e integrada. E talvez o maior desafio hoje não seja tratar o infarto, mas evitar que ele aconteça. Para ficar por dentro de mais conteúdos sobre saúde cardiovascular, acompanhe também nas redes sociais Instagram e Linkedin sempre com conteúdos atualizados, baseados em evidência e com uma abordagem acessível sobre o cuidado com o coração.
By Fernando Figueira April 11, 2026
O estresse sempre fez parte da experiência humana. Em sua forma aguda, ele é uma resposta adaptativa essencial para a sobrevivência. No entanto, na sociedade contemporânea, o estresse deixou de ser episódico e passou a ser contínuo, muitas vezes silencioso, normalizado e até valorizado. Esse cenário levanta uma questão cada vez mais presente na prática clínica: até que ponto o estresse crônico está contribuindo de forma direta para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares? Dados recentes reforçam essa preocupação. Segundo especialistas, o estresse prolongado está diretamente associado ao aumento do risco de infarto, hipertensão e arritmias, sendo considerado hoje um fator relevante na saúde do coração. Uma conexão que vai além do emocional Do ponto de vista fisiológico, o estresse ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e o sistema nervoso simpático. Essa resposta leva à liberação de hormônios como cortisol e adrenalina. Em situações pontuais, esse mecanismo é protetor. O problema surge quando essa ativação se torna constante. Níveis elevados de cortisol ao longo do tempo estão associados a: Aumento da pressão arterial Inflamação sistêmica Disfunção endotelial Maior risco de formação de placas nas artérias De acordo com a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) , o estresse crônico tem impacto direto na regulação cardiovascular e pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardíacas. Comportamentos que amplificam o risco O impacto do estresse não se limita aos mecanismos biológicos. Ele também influencia diretamente o comportamento e, consequentemente, o risco cardiovascular. Indivíduos sob estresse tendem a: Dormir pior Alimentar-se de forma mais desregulada Reduzir a prática de atividade física Aumentar o consumo de álcool ou outras substâncias Esse conjunto de fatores cria um ambiente propício para o desenvolvimento simultâneo de múltiplos riscos. Além disso, situações de estresse intenso podem desencadear condições como a síndrome de Takotsubo, conhecida como “síndrome do coração partido”, que simula um infarto e reforça a conexão entre emoção e coração, tema que já abordei de forma mais aprofundada neste artigo: https://www.drfernandofigueira.com.br/a-sindrome-de-takotsubo-uma-abordagem-cirurgica-diante-de-um-desafio-clinico-raro Um fator cada vez mais central na cardiologia Durante muito tempo, o estresse foi tratado como um fator secundário na cardiologia. Hoje, essa visão vem sendo revista. A combinação entre estresse crônico, privação de sono e estilo de vida moderno tem papel cada vez mais relevante no aumento das doenças cardiovasculares, essa mudança exige uma nova abordagem na prática médica: mais integrada, mais preventiva e mais atenta ao contexto de vida do paciente. Cuidar da rotina também é cuidar do coração  A prevenção cardiovascular contemporânea não pode se limitar ao controle de pressão arterial, colesterol e glicemia. É necessário ampliar o olhar. Cuidar do coração envolve também: Gestão do estresse Qualidade do sono Equilíbrio emocional Organização da rotina Mais do que tratar doenças, o desafio atual é compreender os fatores que as constroem ao longo do tempo.E, nesse contexto, o estresse deixa de ser apenas um coadjuvante e passa a ocupar um papel cada vez mais central.